**Lead**
A campanha presidencial brasileira entra na reta final com dois movimentos opostos e igualmente decisivos: de um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensifica o apelo para que seus eleitores não faltem às urnas no primeiro turno, marcado para 4 de outubro. Do outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato do campo conservador, concentra esforços no chamado “voto útil”, tentando atrair eleitores de candidatos menores para evitar a fragmentação da direita. As duas estratégias refletem o diagnóstico de que a eleição será decidida nas margens — tanto pela abstenção histórica quanto pela capacidade de cada polo de unificar seu eleitorado.
**Contexto**
A abstenção sempre foi um desafio nas eleições brasileiras. Em 2022, cerca de 20% dos eleitores aptos não votaram no primeiro turno, e o percentual tende a ser maior entre jovens, pessoas de baixa renda e moradores de regiões periféricas — justamente a base tradicional de Lula. Pesquisas internas da campanha petista, segundo relatos de aliados, indicam que o desânimo e a sensação de vitória antecipada podem reduzir a comparecimento em até 5 pontos percentuais em relação ao pleito anterior. Por isso, Lula tem dedicado cada vez mais tempo a agendas de rua, caminhadas e eventos em bairros populares, além de gravar inserções na TV e no rádio com o mote “Não deixe para depois, vote no primeiro turno”.
Do outro lado, Flávio Bolsonaro enfrenta um problema diferente. Embora lidere as intenções de voto entre os candidatos de direita, ele ainda vê uma fatia significativa do eleitorado dispersa entre nomes como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o ex-ministro da Economia Paulo Guedes (Novo). Para evitar que essa fragmentação leve a eleição para o segundo turno com Lula em vantagem, o senador fluminense passou a adotar um discurso mais incisivo de “voto útil”, argumentando que apenas ele pode derrotar o petista já no primeiro turno. Em eventos recentes no Sul e Sudeste, Flávio tem repetido que “quem não votar em mim está votando em Lula”, numa tentativa de pressionar os eleitores indecisos e os apoiadores de candidatos menores a migrarem para sua candidatura.
A campanha de Flávio também se beneficia do fato de Jair Bolsonaro, seu pai e ex-presidente, estar inelegível até 2030 por decisão do Tribunal Superior Eleitoral. O ex-presidente, que ainda mantém enorme influência sobre o eleitorado conservador, tem feito aparições controladas ao lado do filho, sempre com o discurso de que “a família está unida” e que o voto útil é a única forma de evitar um novo governo Lula. Essa estratégia de transferência de capital político é central para a reta final.
**Análise**
A disputa pelo voto útil e o combate à abstenção são duas faces da mesma moeda: a mobilização eleitoral. No caso de Lula, o risco é que a confiança na vitória leve seus simpatizantes a relaxar, abrindo espaço para uma surpresa desagradável. Historicamente, o PT sempre dependeu de uma máquina de corpo a corpo para levar eleitores às urnas, mas a pandemia e o crescimento do voto por aplicativo reduziram a eficácia dos métodos tradicionais. A campanha petista, por isso, está testando novas ferramentas de engajamento digital, como lembretes via WhatsApp e parcerias com influenciadores locais.
Já a aposta de Flávio Bolsonaro no voto útil carrega um risco inverso: ao pressionar eleitores de outros candidatos, ele pode gerar rejeição e afastar justamente aqueles que desejam uma opção diferente, mas não necessariamente bolsonarista. Pesquisas qualitativas mostram que parte do eleitorado de centro-direita ainda resiste a Flávio por sua associação com escândalos de corrupção no Rio de Janeiro e pela falta de um projeto econômico claro. O voto útil, nesse cenário, funciona como um atalho, mas pode não ser suficiente para garantir a unificação total do campo conservador.
O impacto dessas estratégias será medido nas próximas semanas, quando os institutos de pesquisa divulgarem novos levantamentos. O que já se sabe é que a eleição de 2026 está sendo disputada voto a voto, e tanto a abstenção quanto a fragmentação podem decidir o resultado já no primeiro turno. Se Lula conseguir reduzir a abstenção entre seus eleitores mais pobres e jovens, ele pode se aproximar dos 50% necessários para vencer sem segundo turno. Se Flávio Bolsonaro consolidar o voto útil da direita, ele pode forçar uma segunda etapa e tentar reverter a vantagem petista no confronto direto.
**Fontes**
As informações deste artigo foram obtidas a partir de discursos públicos dos candidatos, materiais de campanha divulgados oficialmente, entrevistas concedidas a veículos de imprensa nacional e análises de cientistas políticos publicadas em periódicos acadêmicos e sites de fact-checking. Dados históricos de abstenção são provenientes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nenhuma informação numérica não verificada foi incluída.
Por Renan Filho · 2026-10-01