Faltando poucas semanas para o pleito, a coordenação da campanha presidencial do atual mandatário mudou o tom. Em vez de priorizar a exposição em estúdios e a propaganda televisiva, a equipe passou a reforçar a presença do presidente em atos de rua e em visitas a estados considerados centrais para a virada de votos. A medida, segundo aliados ouvidos pela imprensa, busca criar um contraponto direto à narrativa de que o governo estaria isolado ou enclausurado no Palácio do Planalto.
A virada de chave ocorre após pesquisas internas indicarem queda na aprovação do eleitorado feminino e do Nordeste, base histórica do petismo. Em reunião na residência oficial, o comitê de campanha decidiu que o presidente deve participar de, pelo menos, três eventos públicos por semana até o dia do pleito. A meta é visitar 12 estados, com prioridade para Bahia, Pernambuco, Ceará e Minas Gerais, além de um retorno ao Rio Grande do Sul, onde a tragédia climática ainda rende dividendos políticos.
A estratégia, no entanto, não é unânime nem mesmo entre os aliados. Nos bastidores, parlamentares do centrão reclamam que a presença do presidente em palanques regionais tem gerado atritos com prefeitos e governadores de partidos aliados, que se sentem preteridos na divisão do tempo de palco. Em contrapartida, a ala mais ideológica do partido defende que o corpo a corpo é a única forma de reverter a rejeição ao governo em segmentos que foram impactados pela alta da inflação e pelo endividamento das famílias.
Os atos convocados pela central sindical e por movimentos sociais, no entanto, têm atraído um público menor do que o esperado. Imagens aéreas de eventos recentes em capitais como Recife e Salvador mostram um comparecimento aquém das expectativas da coordenação. Especialistas em marketing político creditam o fenômeno ao cansaço do eleitor com a polarização e à falta de novidades na mensagem de campanha, que segue ancorada no "perigo da volta do fascismo" — discurso que perdeu força diante de pesquisas qualitativas que apontam o medo de desemprego como principal motor de decisão de voto.
A presença presidencial nos estados, por sua vez, tem um impacto direto na máquina pública. Em cada viagem, o presidente anuncia liberações de recursos via emendas parlamentares e repasses para obras do PAC. A conta, no entanto, é cada vez mais questionada pelo mercado. O aumento dos gastos discricionários em ano eleitoral, combinado à expectativa de rombo primário, já pressiona a curva de juros e o risco-país. Em relatório divulgado nesta semana, a Instituição Fiscal Independente (IFI) alertou que o ritmo atual de execução orçamentária compromete a sustentabilidade fiscal de médio prazo, independentemente de quem vença a eleição.
Por que isso importa? Porque a aposta em atos de rua e na presença territorial é uma tentativa de compensar a falta de entregas concretas na economia. O presidente, que chegou a prometer um crescimento de 3% ao ano, deve fechar 2026 com um PIB estagnado, juros básicos em dois dígitos e desemprego em queda apenas no setor informal. A estratégia de campanha ignora, propositalmente, o fato de que o eleitor médio brasileiro está mais preocupado com o preço do arroz e do gás do que com a presença do candidato em um trio elétrico.
A análise do FORTIS NEWS é direta: a gestão petista tenta reeditar o manual de 2006, quando Lula venceu no primeiro turno com base no Bolsa Família e no crescimento do crédito. O contexto, porém, é outro. Em 2006, o mercado internacional vivia um ciclo de alta das commodities e o câmbio favorecia a indústria nacional. Hoje, com a China desacelerando e o agronegócio sendo tratado como vilão pelo próprio governo, o cobertor é curto. A presença em palanques pode até gerar cenas de apoio, mas não altera a realidade objetiva de quem precisa renegociar dívidas e não encontra crédito acessível nos bancos públicos.
Há ainda um efeito colateral perverso: cada ato de rua reforça a tese liberal de que o atual governo depende do populismo para se manter no poder. Ao invés de apresentar um programa de futuro, com reformas estruturais e abertura comercial, a campanha prefere o atalho do apelo emocional. A curto prazo, pode funcionar; a médio prazo, aprofunda a desconfiança dos agentes econômicos e adia qualquer possibilidade de retomada sustentável dos investimentos.
Contudo, é preciso reconhecer o contraponto. A base de apoio do presidente segue mobilizada, especialmente em regiões onde o assistencialismo é a principal fonte de renda. Em estados do Norte e Nordeste, a presença presidencial em obras inacabadas e a entrega de casas populares podem reverter a vantagem da oposição em bolsões urbanos. A avaliação interna é que a eleição será decidida no segundo turno, e que o corpo a corpo pode ser decisivo para virar o jogo em cidades médias, onde a rejeição ao candidato adversário é maior do que a rejeição ao atual presidente.
A verdade é que a estratégia lulista é uma aposta de alto risco. Se os atos não lotarem, a impressão de fraqueza será amplificada pela imprensa. Se lotarem, a base pode ganhar ânimo, mas a conta chegará ao eleitor na forma de mais impostos e mais inflação. Em um cenário de estagnação, a presença de palanque é o último recurso de quem não tem o que mostrar em gestão. E o eleitor, cada vez mais informado, percebe a diferença entre discurso e prática.
No fim das contas, a decisão da campanha de reforçar os atos de rua revela o desespero de uma candidatura que não consegue vender um projeto de país. O liberalismo, nesse contexto, sai fortalecido na medida em que a população passa a comparar os resultados objetivos de gestões passadas com a retórica vazia do presente. A eleição de 2026, portanto, será um plebiscito entre o atraso e a modernidade — e os palanques, por maiores que sejam, não mudam essa equação.
A recomendação do FORTIS NEWS, em caráter editorial, é que o eleitor observe os dados, desconfie de promessas milagrosas e cobre propostas concretas de redução do Estado. A rua é o cenário, mas é nas urnas que a decisão se concretiza. E é na liberdade econômica que o Brasil encontrará o caminho para voltar a crescer com justiça social.
Por Renan Filho · 2026-09-21