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Lula vai à ONU acenar ao eleitor centrista e pode encontrar Trump para blindar pauta bilateral

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-20

Em viagem a Nova York na véspera do primeiro turno, o petista buscará na tribuna global o discurso de estadista que lhe falta no Brasil. Encontro com Donald Trump, embora incerto, já é tratado como trunfo eleitoral para despistar o desgaste econômico interno.

A três semanas do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) embarca neste domingo para Nova York, onde discursará na 79ª Assembleia Geral da ONU. A viagem, oficialmente agendada para tratar de agenda multilateral e mudanças climáticas, tem outro alvo claro: o eleitor indeciso e de centro, que ainda não se convenceu da capacidade de Lula de governar sem a sombra de escândalos ou de uma economia que teima em não reagir.

A estratégia da equipe de comunicação do Palácio do Planalto, segundo fontes próximas ao presidente ouvidas pela imprensa, é transformar a fala de terça-feira em um “divisor de águas” da campanha. Em publicação nas redes sociais, o próprio Lula afirmou que levará “a voz do Brasil e da América Latina” para defender a reforma do Conselho de Segurança e um novo pacto global contra a fome. O problema, apontam analistas liberais, é que tais pautas genéricas colidem com a realidade de um país onde o desempenho do PIB no segundo trimestre desacelerou para 0,2%, o desemprego recuou apenas no papel e a inflação dos alimentos já corrói o poder de compra das famílias.

**Contexto**

A viagem ocorre em um momento particularmente delicado para o governo. Nos últimos trinta dias, o índice de aprovação do presidente caiu seis pontos percentuais, conforme pesquisa Genial/Quaest divulgada na quinta-feira. A principal razão, segundo o levantamento, é a percepção de que a economia “não melhorou” para 68% dos entrevistados. Enquanto isso, o principal adversário de Lula, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), capitaliza com uma agenda de cortes de impostos e desburocratização que atraiu o apoio de federações empresariais do Sudeste.

Para piorar, a semana que antecede a viagem foi marcada por mais um capítulo da novela fiscal. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em declaração à imprensa na sexta-feira, confirmou que a meta de déficit zero para 2026 será revisada para um rombo de até 0,5% do PIB — a menos que o Congresso aprove o pacote de revisão de gastos. A notícia provocou uma disparada do dólar, que fechou a R$ 5,80, e fez o Ibovespa recuar 2,3% no dia.

**Por que isso importa**

A aposta em uma foto ao lado de Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos e novamente candidato republicano, é o verdadeiro fio condutor dessa visita. Embora a Casa Branca de Joe Biden tenha confirmado um encontro bilateral de Lula com o presidente americano na segunda-feira, nos bastidores especula-se que o petista também tentará um encontro informal com Trump, que estará na cidade para compromissos de campanha.

Para o eleitorado liberal-conservador brasileiro, que hoje se concentra em torno da candidatura de Tarcísio, um aperto de mão entre Lula e Trump seria lido como contraditório — o petista nunca escondeu seu desprezo pelo republicano, a quem chamou de “fascista” em 2023. Mas para o eleitor médio, que não acompanha o noticiário político diário, a imagem pode sugerir que Lula tem trânsito no cenário internacional e “sabe conversar” com os poderosos. Conforme analista político do Centro de Liberdade Econômica, em artigo publicado no portal Brasil 247, “a foto com Trump seria o selo de que Lula não é o radical que a oposição pinta”. A avaliação, evidentemente, ignora o fato de que o próprio Trump é o radical que Lula demonizou.

**Análise FORTIS**

Debaixo do verniz de estadista globalista, a viagem de Lula à ONU é puro fisiologismo eleitoral. O Brasil não tem peso real no Conselho de Segurança para ser levado a sério numa eventual reforma sem antes arrumar a própria casa fiscal. A defesa do meio ambiente rende aplausos em tribunas, mas contradiz a política de subsídios aos combustíveis fósseis que o governo mantém via Petrobras. A fome no mundo é um tema nobre, mas no Brasil os programas de transferência de renda continuam achatando o mérito e o empreendedorismo.

Enquanto isso, o verdadeiro motor da economia — o setor produtivo, o livre mercado, a redução do Estado — segue sem qualquer sinal do Executivo. Não há uma reforma tributária séria em discussão, não há privatizações, não há desburocratização. Pelo contrário: a carga tributária deve bater novo recorde em 2026, segundo Instituição Fiscal Independente. A viagem a Nova York não mudará esse cenário. Ao contrário, ao posar de estadista enquanto a inflação aperta, Lula só reforça a percepção de que está longe das preocupações reais do povo.

**Contraponto**

É claro que há quem veja na iniciativa um movimento legítimo. Em entrevista à Rádio CBN, o senador petista Jaques Wagner defendeu que “Lula tem o respeito do mundo e isso atrai investimentos”. O argumento é frágil, mas não de todo descartável. Nos últimos meses, fundos soberanos asiáticos anunciaram aportes na indústria brasileira de energia eólica, o que mostra que a credibilidade internacional pode, sim, abrir portas. O problema é que o discurso externo não compensa a falta de previsibilidade interna — e o mercado sabe disso. Prova: o CDS (Credit Default Swap) do Brasil, espécie de seguro contra calote, subiu 12 pontos-base na última semana.

**1. A possível foto de Lula com Trump realmente influencia a eleição brasileira?** Sim, mas de forma limitada. Para o eleitor de centro, que ainda não decidiu voto, uma imagem de Lula ao lado de um líder mundial — mesmo que antagônico — pode gerar a percepção de “boa relação” e “diálogo”. Porém, esse efeito tende a ser anulado se, em contrapartida, os indicadores econômicos domésticos continuarem negativos, como o aumento do preço dos alimentos e a desvalorização do real. No fim, o voto em 2026 será decidido mais pelo bolso do que pela foto.

**2. Quais os riscos dessa estratégia para a imagem do Brasil no exterior?** O maior risco é o Brasil ser visto como um país que não tem agenda própria consistente, usando a ONU como palanque. Os diplomatas estrangeiros percebem quando um discurso de Estadista é, na verdade, um discurso de campanha. Além disso, um eventual encontro com Trump, sem pauta concreta, pode soar como oportunismo e enfraquecer a credibilidade já abalada do país em fóruns multilaterais.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.