**Lead**
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva mudou o tom da comunicação oficial depois do primeiro turno das eleições e gravou um vídeo em formato selfie para falar com o eleitorado. A escolha não passou despercebida: em vez de discurso de palanque, o formato assume enquadramento aproximado, voz coloquial e ambiente doméstico. Mais que um detalhe estético, a atitude sugere uma leitura estratégica do momento político. Num segundo turno, conquistar o eleitor que não votou no candidato ou que se manteve distante da política é a diferença entre vencer e perder. O selfie é um atalho para esse diálogo.
**Contexto**
Durante a campanha do primeiro turno, a comunicação de Lula seguiu o padrão clássico da política brasileira: comícios, entrevistas a veículos tradicionais, agenda pesada de viagens e inserções na televisão. O novo vídeo rompe com esse figurino. A imagem é típica das redes sociais: câmera segura na própria mão, fundo simples e mensagem direta. A mudança de formato reflete também a mudança de horário — a gravação parece ser um registro imediato, sem produção elaborada. Trata-se de uma tentativa de humanizar o presidente em um país conectado por smartphones.
Historicamente, Lula construiu sua imagem pública com o contato corpo a corpo. Sindicalista, percorreu fábricas em rodas de conversa; como presidente, manteve o hábito do improviso. O formato selfie dialoga com essa tradição, mas atualiza o gesto para o ambiente digital. Não é a primeira vez que um líder político adota a linguagem dos influenciadores. No Brasil, o vídeo vertical tornou-se a principal moeda da comunicação política. Quem não fala essa língua perde espaço no debate público. O registro de Lula indica que sua equipe enxergou essa virada.
A opção ganha ainda mais relevância porque ocorre em um período de forte polarização. Após o primeiro turno, os eleitores tendem a buscar referências de estabilidade. Um vídeo sem gravata, mais próximo do dia a dia, comunica que o presidente compreende as preocupações comuns. Esse tipo de gesto não substitui propostas, mas cria um canal emocional com o eleitorado. Em tempos de ataques e desinformação, a proximidade visual é uma forma de defesa da própria narrativa.
**Análise**
A mudança no tom é um termômetro de como a campanha interpreta o resultado. Ao abrir mão da formalidade, Lula demonstra que o segundo turno será disputado também nas plataformas digitais. O selfie é uma mensagem em si: o candidato está acessível, é uma pessoa comum, não uma figura intocável. Para amplos segmentos da população, especialmente os mais jovens, o enquadramento vertical soa menos como publicidade e mais como testemunho. Isso aumenta a chance de o conteúdo ser compartilhado.
Não se deve, contudo, confundir estilo com transformação real. A política segue sendo feita com propostas, alianças e resultados. A forma selfie é atraente, mas será cobrada a coerência entre o gesto e a ação. Se a imagem de proximidade não vier acompanhada de respostas objetivas para o país, o risco é o de uma comunicação esvaziada. O eleitor percebe rapidamente quando a linguagem íntima é apenas um recurso. O êxito dessa nova fase será medido pela reação nas redes e, principalmente, nas urnas. A pergunta que fica é se o vídeo será um episódio isolado ou o começo de uma relação mais direta, menos mediada por jingles e cabos eleitorais.
A iniciativa, no entanto, acerta ao diagnosticar a fadiga do eleitor com a política tradicional. Aos olhos de muitos, discursos protocolares soam distantes do cotidiano. O formato selfie é um convite à conversa, um gesto de humildade que costuma gerar empatia. No Brasil, candidatos que dominam essa linguagem conseguem pautar o debate com imagens simples, de fundo de cozinha ou de celular. Lula, ao adotá-la, reconhece que o poder também se exerce no campo da atenção. Para um país que acompanha as redes em alta velocidade, a mensagem precisa ser curta, próxima e humana. O desafio é fazer com que essa humanidade resista ao teste dos fatos.
**Fontes**
Perfil oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas redes sociais; cobertura pública da campanha eleitoral de 2026; observação do cenário político nacional pós-primeiro turno.
Por Renan Filho · 2026-10-07