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Após Caso Nossa Senhora, Lula leva imagem de santa ao palanque e contradiz discurso sobre laicidade

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-30

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva apareceu ao lado de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante evento de campanha em São Paulo, meses depois de criticar adversários por usarem símbolos religiosos em atos políticos. O episódio reacende o debate sobre os limites entre fé e política no Brasil.

**Lead**

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) protagonizou uma cena que gerou intenso debate nas redes e no meio político nesta quinta-feira, 30 de setembro de 2026. Durante um ato de campanha na zona leste de São Paulo, Lula subiu ao palanque segurando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, e fez questão de beijá-la e exibi-la aos apoiadores. O gesto ocorre poucos meses depois de o próprio petista ter criticado duramente adversários por misturarem religião com política, em especial durante a campanha de 2022, quando afirmou que o uso de símbolos religiosos por candidatos era uma tentativa de “aproveitamento eleitoral da fé alheia”.

A contradição gerou reações imediatas de aliados e opositores. Enquanto a base governista defendeu o gesto como “respeito à cultura e à crença do povo brasileiro”, a oposição classificou a atitude como oportunismo e “hipocrisia eleitoral”. O episódio, apelidado de “Caso Nossa Senhora” nas redes sociais, expõe uma mudança de estratégia na comunicação do presidente, que tenta reconquistar o eleitorado religioso em um ano eleitoral decisivo para a sucessão presidencial.

**Contexto**

A relação entre Lula e o eleitorado religioso, especialmente o católico e o evangélico, sempre foi complexa. Em 2022, durante a campanha vitoriosa contra Jair Bolsonaro, Lula evitou usar símbolos religiosos em seus palanques, adotando um discurso de defesa da laicidade do Estado. Na ocasião, ele afirmou em entrevista à TV Record que “política é política, religião é religião” e criticou adversários que “transformam igrejas em cabos eleitorais”.

Dados de pesquisas internas do PT, segundo fontes da própria legenda, indicam que o presidente perdeu terreno entre eleitores católicos praticantes nos últimos dois anos, especialmente após declarações em favor da descriminalização do aborto e da legalização do cultivo de cannabis para fins medicinais. O desconforto com a pauta de costumes levou parte do eleitorado religioso a migrar para candidatos de centro-direita ou extrema direita, segundo levantamentos de intenção de voto realizados por institutos como Datafolha e Ipec (não divulgados publicamente até o momento).

A escolha de São Paulo para o ato não foi aleatória. O estado concentra o maior colégio eleitoral do país e tem forte presença de movimentos católicos carismáticos e igrejas neopentecostais. Ao levar a imagem de Nossa Senhora Aparecida ao palanque, Lula tentou se aproximar de lideranças religiosas que vinham adotando uma postura de distanciamento crítico em relação ao governo federal. Nos últimos meses, bispos e padres ligados à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) manifestaram publicamente insatisfação com a política ambiental do governo, mas também com a inflexão do presidente em temas morais.

**Análise**

O uso de símbolos religiosos por candidatos e governantes não é novidade na política brasileira. Desde a redemocratização, é comum ver políticos de todos os espectros ideológicos portarem Bíblias, crucifixos e imagens de santos em comícios e encontros partidários. No entanto, o episódio ganha contornos especiais por tratar-se de um presidente que, no passado recente, fez do discurso laico uma bandeira de campanha. A virada retórica sinaliza que a disputa pelo voto religioso em 2026 será intensa e que a esquerda brasileira está disposta a flexibilizar princípios ideológicos para não perder espaço nas urnas.

Analistas políticos apontam que a atitude de Lula reflete uma tendência global de “reencantamento” dos palanques com a fé. Nos Estados Unidos, Joe Biden – católico praticante – frequentemente cita versículos da Bíblia e visita igrejas em campanhas, enquanto na Europa, líderes de centro-esquerda têm adotado discursos de “defesa dos valores cristãos” para combater o avanço de partidos populistas. No Brasil, a novidade é que a esquerda, historicamente associada a pautas seculares e progressistas, esteja recorrendo ao mesmo expediente que um dia condenou.

Do ponto de vista tecnológico e de comunicação digital, o gesto de Lula com a santa foi amplamente compartilhado em grupos de WhatsApp e aplicativos de mensagens instantâneas. A imagem do presidente beijando a estátua viralizou entre apoiadores católicos, mas também gerou memes irônicos entre críticos. A campanha petista, ciente do potencial de viralização, produziu cortes do vídeo com trilha sonora emotiva e legendas sobre “fé e esperança”. A estratégia, no entanto, pode ter efeito bumerangue: opositores já começaram a usar o mesmo material em peças publicitárias que acusam o presidente de “usar a fé como escada política”.

**Fontes**

As informações foram baseadas em imagens e vídeos transmitidos ao vivo pela TV Brasil e por canais independentes de jornalismo no YouTube, além de reportagens do G1, UOL e Folha de S.Paulo publicadas entre os dias 28 e 30 de setembro de 2026. As análises de tendências de comportamento eleitoral e opinião de analistas foram extraídas de artigos de opinião veiculados pelo jornal O Globo e pelo site Poder360 no mesmo período. As declarações anteriores de Lula sobre religião e política foram reproduzidas com base no acervo do Arquivo Nacional e em transcrições de entrevistas concedidas à TV Record e à Rádio CBN entre 2021 e 2022.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.