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Lula e a herança que deixa ao Brasil: um governo de contrastes entre avanços sociais e desafios fiscais

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-30

A pouco mais de dois meses do fim do mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva projeta sua herança política e econômica, marcada pela reconstrução de políticas públicas, mas também por um legado de tensões fiscais e polarização.

**Lead**

A menos de dois meses do fim do terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixa para o Brasil uma herança política e econômica de contrastes. Se por um lado o governo conseguiu recolocar o país no centro do debate internacional e retomar programas sociais que marcaram suas gestões anteriores, por outro entrega uma economia com juros elevados, câmbio pressionado e um ajuste fiscal ainda em curso. O legado, avaliado por analistas de diferentes espectros, é visto como um dos mais desafiadores da história recente do país, em um cenário de polarização extrema e de permanentes disputas entre os Poderes.

**Contexto**

Eleito em 2022 após uma disputa acirrada, Lula assumiu o terceiro mandato em janeiro de 2023 com a promessa de reconstruir o país. A herança que ele mesmo ajudou a construir ao longo da vida pública, no entanto, passou por uma transformação profunda nos últimos quatro anos. O governo federal retomou programas como o Bolsa Família, rebatizado de Aposentadoria Social no fim do mandato, e relançou o Minha Casa, Minha Vida. Também conduziu uma política externa ativa, com protagonismo em debates sobre mudanças climáticas e reforma da governança global.

A área social foi, de fato, o carro-chefe da gestão. O governo ampliou o acesso à educação superior, retomou investimentos em ciência e tecnologia e promoveu uma política de valorização do salário mínimo acima da inflação. As taxas de desemprego caíram ao longo do mandato, e a renda das famílias mais pobres apresentou avanços, beneficiadas por um mercado de trabalho aquecido e pela expansão de programas de transferência de renda.

No campo econômico, porém, o cenário é mais complexo. O presidente enfrentou uma crise de confiança dos mercados já no primeiro ano de mandato, com a percepção de que o governo não dava sinais claros de compromisso com a sustentabilidade fiscal. Apesar da aprovação de um novo arcabouço fiscal, as despesas continuaram a crescer em ritmo acelerado, e a dívida pública atingiu patamares elevados. O Banco Central, embora formalmente autônomo, foi alvo de críticas recorrentes do presidente, que chegou a classificar a condução da política monetária de "irresponsável". A taxa básica de juros, a Selic, permaneceu em nível alto, encarecendo o crédito e limitando o crescimento.

A relação com o Congresso também deixou marcas. Lula governou com uma base ampla, mas frágil, e recorreu com frequência ao chamado "orçamento secreto", mecanismo herdado de governos anteriores e que se tornou um dos símbolos da crise de representatividade política no país. A discussão sobre a autonomia do Banco Central e a atuação do Supremo Tribunal Federal em casos de grande repercussão ajudaram a acirrar o clima político.

**Análise**

A herança de Lula precisa ser lida em duas chaves. Para seus apoiadores, o saldo é positivo: o país voltou a ser protagonista global, o Estado recuperou capacidade de investimento e a agenda social foi recolocada no centro da política. Para críticos, o governo entrega um país com contas públicas em deterioração, inflação de alimentos e um ambiente de negócios fragilizado, ainda que com mercado de trabalho resiliente. A verdade é que o legado final será disputado pelos historiadores, mas alguns elementos já são incontornáveis.

O primeiro é a reconfiguração do papel do Estado. Lula deixa um governo que ampliou transferências de renda, mas que também criou novos programas permanentes, como o Pé-de-Meia e o Mais Médicos, sem uma fonte de financiamento claramente definida para todos. A herança fiscal, portanto, é usada pelos adversários como principal munição eleitoral, enquanto os aliados apontam que o investimento público em infraestrutura, educação e saúde produziu efeitos que serão sentidos no médio prazo.

O segundo ponto é a polarização. Lula encerra o mandato com um índice de aprovação que, embora majoritário em algumas pesquisas, segue profundamente dividido. A herança política imediata é a de um país cindido, com instituições sob tensão e um Congresso que deve continuar a pautar o próximo governo, seja ele qual for. O ex-presidente Jair Bolsonaro, mesmo inelegível, permanece como uma força central na direita, e a esquerda, ainda que unida em torno de Lula, enfrenta dificuldade de renovação.

**Fontes**

Este texto foi elaborado com base em informações públicas divulgadas por órgãos oficiais do governo federal, incluindo o Ministério da Fazenda, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social e o Banco Central do Brasil. Também foram considerados relatórios de instituições de pesquisa econômica, como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e análises publicadas pela imprensa nacional especializada em economia e política.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.