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Internacional

Lula e a herança que ele mesmo deixou para o Brasil: um legado de contrastes

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-30

Ao final de seu terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixa um país com avanços sociais inegáveis, mas também com desafios fiscais e institucionais que ele próprio ajudou a moldar.

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Brasília, 30 de outubro de 2026 — Ao completar seu terceiro mandato presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva encerra um ciclo que redefine o papel do Brasil no cenário internacional e deixa uma herança política e econômica profundamente marcada por seus próprios atos e decisões. Mais do que um legado abstrato, o que se observa é um país que carrega as digitais do petista em cada conquista e em cada contradição — da expansão de programas sociais à complexa equação fiscal que o próximo governo terá de enfrentar.

**Contexto**

A trajetória de Lula, que começou como líder sindical no ABC paulista e chegou ao Planalto em 2003, sempre foi pautada por uma narrativa de inclusão e desenvolvimento. Em seus dois primeiros mandatos (2003-2010), o presidente promoveu uma das maiores reduções da desigualdade da história recente, com o Bolsa Família e o crescimento do crédito consignado puxando o consumo interno. O país viveu um boom de commodities que permitiu a construção de reservas internacionais robustas e a conquista do grau de investimento.

Agora, em 2026, o cenário é distinto. O terceiro mandato, iniciado em 2023, foi marcado por uma tentativa de reconstrução institucional após anos de polarização. Lula reassumiu com a promessa de pacificar o país e retomar o protagonismo global, especialmente na agenda ambiental e na reforma da governança internacional. No entanto, a herança que ele deixa é ambivalente: se por um lado o Brasil voltou a ser voz ativa em fóruns como o G20 e a COP, por outro, a economia doméstica enfrenta pressões inflacionárias e um debate acirrado sobre o teto de gastos e a sustentabilidade da dívida pública.

A relação de Lula com o Congresso, que ele próprio ajudou a fortalecer por meio de emendas parlamentares e negociações constantes, criou um presidencialismo de coalizão mais dependente do Legislativo. Essa dinâmica, que garantiu governabilidade, também ampliou o custo fiscal e a percepção de interferência política em órgãos de controle. O legado, portanto, não é monolítico: é um mosaico de avanços sociais e de armadilhas estruturais que ele ajudou a construir com suas escolhas.

**Análise**

A herança de Lula pode ser lida em duas chaves complementares. A primeira é a da política social. O Bolsa Família, rebatizado e ampliado, tornou-se um pilar de proteção que atravessa governos e é reconhecido internacionalmente como referência em transferência de renda. A valorização real do salário mínimo, outra marca de seus governos, teve impacto direto na renda dos mais pobres e na formalização do mercado de trabalho. Esses programas não apenas reduziram a pobreza, mas também criaram uma base de apoio político que transcende a figura do próprio Lula, consolidando o PT como força hegemônica na esquerda brasileira.

A segunda chave é a da gestão macroeconômica. Ao mesmo tempo em que Lula sempre defendeu o papel do Estado como indutor do desenvolvimento, foi sob seus governos que o Brasil adotou o tripé econômico — câmbio flutuante, meta de inflação e superávit primário — que garantiu credibilidade nos mercados. Porém, a partir de 2023, a equipe econômica optou por uma política fiscal mais expansiva, com aumento de gastos e revisão de metas, o que gerou desconfiança entre investidores e elevou o risco-país. O próprio Lula, em discursos públicos, criticou a independência do Banco Central e defendeu taxas de juros mais baixas, criando um atrito constante com a autoridade monetária.

Essa tensão entre o discurso desenvolvimentista e a realidade fiscal é talvez a herança mais delicada. O próximo presidente, seja qual for, terá de lidar com um país que aprendeu a depender de programas sociais, mas que também precisa de investimento privado para crescer de forma sustentável. A herança de Lula, nesse sentido, é um convite à reflexão sobre os limites do Estado e o papel do mercado — um debate que ele mesmo provocou e que permanece em aberto.

No plano internacional, o legado é igualmente complexo. Lula recolocou o Brasil no centro do debate sobre mudanças climáticas, com a redução do desmatamento na Amazônia e a defesa de uma economia verde. Sua atuação na mediação de conflitos, como a crise na Venezuela e a guerra na Ucrânia, reforçou a imagem de um país que busca autonomia e diálogo. No entanto, a ausência de resultados concretos em reformas globais, como a ampliação do Conselho de Segurança da ONU, expõe os limites do soft power brasileiro. A herança, aqui, é a de um país que voltou a ser respeitado, mas que ainda não converteu esse respeito em influência efetiva.

**Fontes**

As informações deste artigo são baseadas em dados públicos do Banco Central do Brasil, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em discursos oficiais do Palácio do Planalto e em relatórios de organizações internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Análises de conjuntura foram extraídas de publicações de veículos como Folha de S.Paulo, O Globo e The Economist, além de notas técnicas de centros de pesquisa como o IPEA e a FGV. Nenhuma informação foi obtida por meio de fontes anônimas ou não verificadas.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.