**Lead**
Em uma movimentação rara na reta final do calendário eleitoral, as campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva e de Flávio Dino protocolaram, na noite de domingo, pedidos formais junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) solicitando a prorrogação do horário de votação em todo o território nacional. A justificativa apresentada por ambas as equipes é a mesma: a necessidade de garantir a segurança sanitária e a acessibilidade de eleitores em regiões afetadas por eventos climáticos extremos e surtos de doenças respiratórias. No entanto, por trás da pauta logística, os documentos revelam um capítulo à parte: cada campanha anexou um anexo técnico-científico com recomendações específicas para a comunidade acadêmica e para a política de ciência e tecnologia do país, gerando um debate inédito sobre o papel da pesquisa no processo eleitoral.
**Contexto**
A solicitação conjunta, embora inédita na forma, não é novidade no conteúdo. Desde o início da pandemia, especialistas em saúde pública e logística eleitoral vêm alertando para a necessidade de planos de contingência. O pedido de prorrogação, que pode estender a votação por até duas horas em locais de difícil acesso, foi embasado em estudos preliminares de duas instituições federais de pesquisa, que indicam um aumento de casos de síndromes respiratórias agudas em pelo menos cinco capitais brasileiras. As campanhas, contudo, foram além do protocolo padrão.
O documento assinado pela coordenação da campanha de Lula, intitulado “Ciência para a Democracia”, propõe que, caso a prorrogação seja aprovada, o TSE destine um percentual do horário estendido para a realização de uma pesquisa-ação sobre a experiência do eleitor com o voto eletrônico, em parceria com universidades públicas. A ideia, segundo o texto, é coletar dados em tempo real sobre acessibilidade, tempo de espera e clareza das instruções de votação, com a participação de cientistas sociais e estatísticos voluntários. A campanha de Flávio Dino, por sua vez, protocolou um adendo intitulado “Inovação e Resiliência”, que sugere a criação de um comitê de emergência científica para monitorar, durante a votação, a qualidade do ar e a incidência de eventos climáticos, com base em dados de satélite e estações meteorológicas, permitindo uma reavaliação dinâmica do horário de fechamento das seções.
**Análise**
A princípio, a discussão sobre prorrogação da votação é de natureza estritamente logística e jurídica. No entanto, a inclusão de anexos científicos nos pedidos transforma a pauta em um marco para a relação entre política e academia. Especialistas ouvidos por veículos de imprensa especializados em política científica apontam que, independentemente do resultado do pleito, a sinalização das duas principais campanhas de que a ciência deve ser parte ativa do processo eleitoral é um avanço simbólico. Isso porque, historicamente, a comunidade científica brasileira tem sido chamada a opinar apenas sobre políticas setoriais, como fomento à pesquisa ou regulação de tecnologias, e raramente sobre o desenho operacional de uma eleição.
Por outro lado, a medida também levanta preocupações. Críticos dentro do próprio meio acadêmico questionam a viabilidade de se realizar pesquisas científicas em um ambiente de alta tensão e com prazos exíguos, como é o dia da votação. A coleta de dados em tempo real, embora tecnicamente possível, exigiria um protocolo ético rigoroso, aprovação de comitês de ética em pesquisa com seres humanos e a garantia de que a presença de pesquisadores não interferisse no fluxo de eleitores. Além disso, a proposta de usar dados de satélite para decidir sobre o fechamento de seções, embora inovadora, esbarra na necessidade de uma infraestrutura de processamento de dados que pode não estar disponível em todos os municípios.
Ainda assim, o movimento das campanhas sinaliza uma tendência mais ampla: a de que a ciência deixe de ser um tema de campanha e passe a ser uma ferramenta de gestão eleitoral. Se aprovados, os anexos podem estabelecer um precedente para que, em futuras eleições, a comunidade científica seja consultada não apenas sobre o que fazer, mas sobre como fazer. Para a ciência brasileira, que enfrenta anos de cortes orçamentários e descrédito institucional, ver seu método sendo invocado em um documento oficial de campanha presidencial é, no mínimo, um sinal de que o debate público sobre o valor da pesquisa está mudando de patamar.
**Fontes**
As informações sobre os pedidos protocolados foram divulgadas pelas assessorias de imprensa das campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva e de Flávio Dino, em comunicados oficiais enviados à imprensa na noite de domingo. Os documentos completos estão disponíveis para consulta no sistema de acompanhamento processual do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Dados preliminares sobre a situação sanitária e climática foram referenciados em relatórios técnicos de instituições públicas de pesquisa, cujos nomes não foram divulgados oficialmente até o fechamento desta edição. A análise de impacto foi baseada em entrevistas concedidas por especialistas em políticas públicas de ciência e tecnologia a veículos de comunicação nacionais, conforme registrado em suas respectivas publicações.
Por Renan Filho · 2026-10-26