**Lead**
Na reta final da campanha para a Presidência do Brasil, as estratégias dos principais candidatos vão além do jogo político tradicional. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensifica iniciativas para reduzir a abstenção, enquanto o deputado federal Flávio Bolsonaro (PL) concentra esforços no chamado 'voto útil' entre os eleitores conservadores. Mais do que táticas eleitorais, essas abordagens refletem dinâmicas culturais profundas: a relação do brasileiro com a política, a desconfiança institucional e a busca por representação identitária.
**Contexto**
A abstenção nas eleições brasileiras é um fenômeno recorrente e complexo. Em pleitos recentes, milhões de eleitores deixaram de comparecer às urnas, por razões que vão desde a apatia política até a falta de confiança no sistema. Esse comportamento não é meramente estatístico; ele carrega marcas culturais de uma sociedade que, em parte, vê a política como algo distante ou corrupto. Lula, ao tentar conter a abstenção, busca reverter esse quadro com discursos que aproximam o eleitorado das conquistas sociais e da importância do voto como ferramenta de cidadania.
Do outro lado, Flávio Bolsonaro aposta no 'voto útil' — uma estratégia que se baseia na percepção cultural de que o voto em um candidato com poucas chances de vencer é 'desperdiçado'. Esse conceito é especialmente forte em sistemas eleitorais com segundo turno e fragmentação partidária. O deputado federal, que herdou parte da base do ex-presidente Jair Bolsonaro, busca consolidar o apoio dos eleitores que rejeitam o PT, transformando a rejeição em adesão pragmática. Essa dinâmica revela uma cultura política na qual a escolha eleitoral é frequentemente guiada mais pela aversão ao oponente do que por identificação positiva.
Ambas as campanhas também dialogam com a cultura regional e geracional. Enquanto Lula intensifica a presença no Nordeste, onde sua imagem é fortemente associada a programas sociais e à memória de governos passados, Flávio Bolsonaro foca no Sul e Sudeste, onde o discurso anti-PT e de defesa de valores conservadores encontra eco. A cultura política brasileira, marcada por forte personalismo e pela influência de lideranças carismáticas, faz com que as estratégias de mobilização dependam menos de propostas programáticas e mais de narrativas identitárias.
**Análise**
Essas abordagens têm implicações que vão além do resultado eleitoral. A tentativa de conter a abstenção reforça a noção de que a participação no voto é um ato cultural que precisa ser constantemente estimulado — especialmente em um país onde a obrigatoriedade do voto convive com o desencanto. Se a abstenção cresce em setores mais jovens e menos escolarizados, a estratégia de Lula pode ser lida como um esforço para reengajar esses grupos, apostando em uma cultura de pertencimento e esperança.
Já o foco no voto útil por parte de Flávio Bolsonaro evidencia a cultura de polarização que domina o cenário político atual. Essa lógica transforma eleições em disputas binárias, nas quais o eleitor é pressionado a escolher o 'menos pior'. Especialistas em comportamento político apontam que, em contextos de alta polarização, o voto útil se torna um reflexo de uma cultura de medo e rejeição, mais do que de apoio genuíno. Isso pode aprofundar a fragmentação social e dificultar a construção de consensos após o pleito.
**Fontes**
As informações sobre as estratégias de campanha têm como base declarações públicas de representantes das candidaturas e análise de tendências eleitorais registradas por institutos de pesquisa e por veículos de imprensa que cobrem o processo político brasileiro. A análise cultural fundamenta-se em observações de cientistas políticos e sociólogos que estudam o comportamento eleitoral no Brasil, sem citação direta de nomes ou dados numéricos específicos, conforme as diretrizes éticas do FORTIS NEWS.
Por Renan Filho · 2026-10-01