**Lead**
A reta final da campanha presidencial brasileira para o segundo turno, marcado para 30 de outubro, é dominada por duas estratégias opostas: de um lado, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) busca mobilizar eleitores que tradicionalmente não comparecem às urnas, tentando conter a abstenção que historicamente prejudica a esquerda; do outro, o deputado federal Flávio Bolsonaro (PL), filho e principal articulador da campanha de Jair Bolsonaro, apela ao chamado “voto útil” para unir o eleitorado conservador em torno do atual presidente. A disputa, que já é a mais polarizada desde a redemocratização, ganha contornos táticos decisivos nos últimos dias.
**Contexto**
A abstenção no Brasil é um fenômeno persistente. No primeiro turno de 2022, mais de 20% dos eleitores aptos não votaram, um número que tende a crescer em segundo turnos, especialmente entre os mais pobres e jovens — base eleitoral de Lula. Pesquisas de boca de urna e análises de institutos como o Datafolha e o Ipec (sem citar números exatos) indicam que a taxa de ausência pode superar a de 2018, quando 21,3% dos eleitores faltaram no segundo turno. A campanha petista, ciente desse risco, intensificou nos últimos dias ações de rua, carreatas e uso de redes sociais para incentivar o voto, com foco em bairros periféricos e regiões Norte e Nordeste, onde Lula tem vantagem, mas a abstenção é historicamente maior.
Paralelamente, a campanha de Jair Bolsonaro, comandada por Flávio Bolsonaro, adota um discurso de união da direita. Após o primeiro turno, em que Bolsonaro obteve 43,2% dos votos válidos contra 48,4% de Lula, a estratégia é evitar que eleitores de candidatos derrotados, como Simone Tebet (MDB) e Ciro Gomes (PDT), migrem para Lula ou simplesmente anulem o voto. Flávio Bolsonaro tem usado entrevistas e redes sociais para defender que “todo voto contra Lula é útil”, tentando transformar a eleição em um plebiscito contra o petismo. A tática inclui alianças informais com parte do centrão e com setores evangélicos, que já apoiavam Bolsonaro, mas que precisam ser mobilizados para evitar dispersão.
**Análise**
A abstenção é um fator que pode decidir a eleição. Em um cenário de empate técnico nas pesquisas de intenção de voto (que mostram Lula ligeiramente à frente, mas dentro da margem de erro), cada ponto percentual de comparecimento faz diferença. Lula precisa que seu eleitorado potencial, que inclui muitos beneficiários de programas sociais e trabalhadores informais, vá às urnas. A campanha petista aposta em uma operação de “corpo a corpo” nos últimos dias, com lideranças locais e artistas fazendo panfletagem e carreatas. No entanto, o desafio é logístico: muitos eleitores de Lula moram em áreas com transporte precário e podem desistir de votar devido à distância ou ao cansaço.
Já o voto útil pregado por Flávio Bolsonaro busca reverter a vantagem de Lula no primeiro turno. O argumento central é que, com a polarização extrema, votar em candidatos de terceira via no primeiro turno foi um “erro” que agora precisa ser corrigido. A estratégia tem eco entre eleitores de centro-direita que rejeitam Lula, mas que podem não estar totalmente convencidos com Bolsonaro. Pesquisas qualitativas indicam que parte desse eleitorado ainda hesita, mas a pressão pelo voto útil pode aumentar a adesão nos últimos dias. Flávio Bolsonaro, que atua como coordenador político, também tenta costurar apoios de governadores e prefeitos eleitos no primeiro turno para ampliar a capilaridade da campanha.
Do ponto de vista tático, a reta final deve ser marcada por intensa propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV, além de debates e sabatinas. Lula e Bolsonaro devem evitar erros que possam desmobilizar suas bases. A abstenção e o voto útil são duas faces da mesma moeda: a capacidade de cada campanha de transformar intenção em voto. Para Lula, o risco é que a apatia de seu eleitorado natural o leve a perder votos preciosos. Para Bolsonaro, o perigo é que o discurso de voto útil não seja suficiente para superar a rejeição que ele enfrenta entre eleitores moderados.
**Fontes**
As informações deste artigo são baseadas em reportagens de veículos da imprensa brasileira, como G1, Folha de S.Paulo, UOL e O Globo, além de análises de institutos de pesquisa como Datafolha e Ipec. Dados sobre abstenção histórica são do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nenhuma informação foi obtida diretamente pelo FORTIS NEWS, que apenas compila e contextualiza fatos de domínio público.
Por Renan Filho · 2026-10-01