Em ato de campanha nesta sexta-feira (25), em São Paulo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a aprovação imediata de lei que proíbe as apostas de quota fixa no Brasil. Na transmissão oficial do evento, o petista associou integrantes da família Bolsonaro a Vorcaro, apontado por ele como lobista das apostas, e chamou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de "traidor do Brasil".
O episódio ocorre a nove dias do primeiro turno das eleições de 2026, em meio à escalada da crise social provocada pelo endividamento de apostadores. Levantamento do Banco Central de 2024 mostrou que beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões para plataformas de apostas em um único mês. No mesmo período, o total das transferências via Pix para o setor chegou a R$ 22,5 bilhões. Esses números destroem o argumento de que aposta é apenas lazer e colocam o tema no centro da disputa presidencial.
Vale lembrar que foi o próprio governo Lula quem sancionou, em dezembro de 2023, a Lei 14.790, que regulamentou as bets no país. A mudança de tom agora não é acaso: é resposta às pesquisas de opinião e à pressão de bancadas religiosas. O governo trocou a arrecadação fácil pelo discurso de proteção ao consumidor, sem abrir mão do confronto com a família Bolsonaro.
Na avaliação de Lula, a ligação dos Bolsonaros com Vorcaro seria a prova de que o bolsonarismo serve ao dinheiro do jogo. Para o presidente, "trair o Brasil" é defender a indústria do vício enquanto milhões de famílias perdem o orçamento. Flávio Bolsonaro, que sempre se apresentou como paladino da moralidade, ainda não apresentou resposta objetiva à acusação até o fechamento desta edição.
A discussão não é apenas eleitoral. As apostas online movimentam bilhões e tocam em três temas centrais para o liberal-conservadorismo: a liberdade individual, o papel do Estado e a responsabilidade fiscal. Se o Estado não consegue regular o setor sem incentivar o vício, a tentação do veto total surge como falso atalho. Proibir bets, porém, não elimina a demanda; joga o problema para o mercado ilegal, sem controle sobre quem aposta, quando aposta e quanto perde.
Análise FORTIS
O liberal-conservador não pode aceitar a falácia de que a resposta ao excesso é a proibição. A regulamentação enxuta, com limites claros, cadastro ativo e tributação justa, é superior ao paternalismo do Estado que entrega pouco e cobra caro. O histórico brasileiro é repleto de exemplos em que a proibição gerou crime organizado, do jogo do bicho ao contrabando. A proibição das bets, se vier, não fará diferente.
Contraponto
Nada disso absolve a classe política. O lobby das bets é real e já mostrou sua força em Brasília. Investigações sobre manipulação de resultados, comissões parlamentares e prisões de influenciadores apontaram uma rede de interesses que mistura futebol, igreja e lavagem de dinheiro. Se Lula tem elementos concretos contra Vorcaro, o caminho é o Ministério Público, não o palanque. E se a oposição quer defender o livre mercado, precisa explicar por que aceitou o apetite das plataformas sobre o orçamento das famílias mais pobres.
Por Renan Filho · 2026-09-25