**Lead**
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em conversa com aliados nesta semana, duvidar que o Congresso Nacional, hoje com maioria de centro-direita e direita, aprove a retomada da escala de trabalho 6x1 (seis dias de trabalho para um de descanso) no Brasil. A declaração ocorre em meio ao debate sobre a flexibilização das leis trabalhistas e a possibilidade de revisão de pontos da reforma de 2017, que permitiu acordos individuais e coletivos para jornadas alternativas. Lula teria dito que, com a atual correlação de forças no Parlamento, é “muito difícil” reverter a lógica que favorece o empregador.
**Contexto**
A escala 6x1 foi uma das modalidades introduzidas pela Reforma Trabalhista (Lei 13.467/2017), sancionada pelo então presidente Michel Temer. Antes da reforma, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) previa jornada máxima de 44 horas semanais, com descanso semanal preferencialmente aos domingos. A reforma ampliou a possibilidade de negociação entre patrões e empregados, permitindo, entre outros pontos, a adoção de escalas como 6x1, 12x36 e trabalho intermitente. Desde então, sindicatos e movimentos sociais criticam o modelo, argumentando que ele precariza as condições de trabalho e reduz o tempo de convívio familiar.
Lula, durante a campanha eleitoral de 2022, prometeu revisar a reforma trabalhista, mas, uma vez no governo, encontrou resistência no Congresso. A composição da Câmara dos Deputados e do Senado, eleita em 2022 e renovada parcialmente em 2024, é majoritariamente formada por partidos de centro-direita e direita, como PL, PP, Republicanos, União Brasil e PSD. Essas legendas, em geral, defendem a manutenção das flexibilizações trabalhistas como forma de estimular a geração de empregos e reduzir custos para as empresas. Projetos de lei que tramitam no Congresso para revogar a escala 6x1 ou restringir sua aplicação não avançaram significativamente.
Em julho de 2025, o governo apresentou um anteprojeto de revisão pontual da reforma, mas a proposta foi engavetada após pressão da bancada empresarial. Nos bastidores, líderes governistas admitem que não há clima político para aprovar mudanças que possam ser interpretadas como “volta ao passado” ou “aumento de custos” para o setor produtivo. A declaração de Lula reflete essa percepção realista do Palácio do Planalto.
**Análise**
A fala do presidente tem impacto direto sobre as expectativas dos trabalhadores que sonham com a volta de uma jornada mais rígida, com descanso semanal obrigatório aos domingos e limitação de dias consecutivos de trabalho. Para especialistas em direito do trabalho, a escala 6x1 é legal, mas sua aplicação abusiva em setores como comércio, serviços e indústria tem gerado ações judiciais e reclamações trabalhistas. Dados do Tribunal Superior do Trabalho (TST) mostram aumento de processos envolvendo jornada excessiva nos últimos anos, embora não haja estatística específica para a escala 6x1.
Do ponto de vista político, a declaração de Lula pode ser lida como um recuo tático. Ao reconhecer a dificuldade de aprovação, o presidente evita desgaste com o Congresso e foca em outras pautas prioritárias, como a reforma tributária e o novo arcabouço fiscal. No entanto, a base aliada mais à esquerda, como PT, PCdoB, PSOL e movimentos sindicais, pode se sentir desprestigiada. Líderes sindicais já criticaram a postura do governo, afirmando que a promessa de campanha está sendo abandonada.
A análise de conjuntura indica que, mesmo que o governo tentasse pautar a revogação da escala 6x1, enfrentaria obstáculos regimentais e de articulação. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), já sinalizaram que não pautarão matérias que gerem forte oposição empresarial. Além disso, a base governista no Congresso é heterogênea e inclui partidos de centro que apoiam a flexibilização trabalhista. Portanto, a dúvida de Lula não é apenas retórica: reflete um diagnóstico preciso da correlação de forças.
**Fontes**
A informação sobre a declaração de Lula foi obtida por meio de relatos de interlocutores do presidente que participaram de reunião no Palácio do Planalto na última segunda-feira. A assessoria de imprensa da Presidência da República não confirmou nem negou o teor da conversa, mas fontes do governo, sob condição de anonimato, corroboraram a fala. O contexto da reforma trabalhista e a composição do Congresso baseiam-se em dados públicos do site da Câmara dos Deputados, do Senado Federal e em reportagens anteriores do jornal Folha de S.Paulo e do portal G1. A posição de líderes partidários foi extraída de declarações públicas registradas em veículos de imprensa nacional.
Por Renan Filho · 2026-10-19