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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em ato realizado na Avenida Paulista, em São Paulo, nesta quinta-feira (1º de maio), que o Brasil enfrenta uma escolha fundamental entre a democracia e a barbárie. A declaração foi feita durante as comemorações do Dia do Trabalhador, evento que reuniu milhares de pessoas no coração financeiro e cultural da cidade. Para Lula, o momento exige clareza sobre os valores que devem guiar a sociedade brasileira, em um contexto de forte polarização política.
**Contexto**
A Avenida Paulista não é apenas um centro econômico; é também um palco histórico de manifestações políticas e culturais. Desde as Diretas Já, nos anos 1980, até os protestos recentes, o local se consolidou como um símbolo da luta por direitos e da expressão popular. A fala de Lula ocorre em um cenário em que o país ainda vive os resquícios de uma gestão anterior marcada por ataques sistemáticos às instituições democráticas e à diversidade cultural. O presidente aproveitou a data, que tradicionalmente celebra as conquistas dos trabalhadores, para reafirmar o compromisso de seu governo com a reconstrução de políticas públicas voltadas à educação, à ciência e, especialmente, à cultura.
O ato contou com a presença de lideranças sindicais, movimentos sociais e artistas, embora o palco principal tenha sido ocupado por discursos políticos. A escolha da Paulista não foi aleatória: o local foi palco de atos bolsonaristas após as eleições de 2022, e reconquistá-lo simbolicamente representa, para o campo democrático, uma afirmação de resistência. Durante sua fala, Lula citou a necessidade de fortalecer os canais de participação popular e de proteger a liberdade de expressão, valores que ele associou diretamente à ideia de democracia.
A expressão “barbárie” usada pelo presidente ecoa um debate que atravessa a produção cultural brasileira há décadas. Escritores, cineastas e músicos têm refletido sobre os momentos em que a civilização parece ceder lugar à violência e à intolerância. O conceito remete à obra de pensadores como Walter Benjamin, que via na barbárie não um estado natural, mas uma consequência da falência das instituições. Ao usar o termo, Lula não apenas definiu um inimigo político, mas também evocou um imaginário cultural que ressoa em obras canônicas da literatura nacional, como “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, ou “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, que retratam o choque entre o progresso e a desumanização.
**Análise**
A declaração de Lula insere-se em uma longa tradição de líderes que recorrem a dicotomias morais para mobilizar a opinião pública. No entanto, ao situar o debate no campo da cultura — ao falar em “barbárie” —, o presidente toca em uma ferida profunda da sociedade brasileira: a desigualdade de acesso a bens simbólicos. A cultura, no Brasil, sempre foi um campo de disputa entre a elite e as classes populares, entre o erudito e o popular, entre a tradição e a inovação. A gestão anterior promoveu cortes drásticos no orçamento da cultura, extinguiu o Ministério da Cultura e perseguiu artistas que se manifestavam contrariamente ao governo. Nesse sentido, a fala de Lula pode ser lida como um resgate do papel do Estado como garantidor da diversidade cultural e da liberdade de criação.
Por outro lado, a polarização que a frase explicita também revela um risco: a tendência de reduzir o debate público a um maniqueísmo que pode sufocar nuances. Críticos argumentam que a simples oposição entre democracia e barbárie ignora as contradições internas de ambos os lados. A própria história brasileira mostra que governos democraticamente eleitos também cometeram violações de direitos. No campo cultural, a polarização tem gerado cancelamentos e censura informal, tanto da direita quanto da esquerda. O grande desafio, portanto, é construir uma cultura democrática que seja capaz de abrigar o dissenso sem recorrer à exclusão do outro.
A Paulista, com seus museus, teatros e centros culturais, é o cenário perfeito para esse debate. A recente reabertura do Masp após reforma e a programação do Sesc Paulista mostram que a produção cultural não parou. No entanto, o setor ainda se recupera dos efeitos da pandemia e dos cortes orçamentários. Iniciativas como a Lei Paulo Gustavo e o retorno do Ministério da Cultura sinalizam uma retomada, mas a efetividade dessas políticas dependerá da capacidade de diálogo entre governo e sociedade civil. A fala de Lula, ao mesmo tempo que mobiliza, também cobra uma resposta da classe artística: qual o papel da cultura na defesa da democracia? Será ela apenas um reflexo das disputas políticas ou pode atuar como força transformadora?
**Fontes**
As informações foram obtidas a partir de declarações públicas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o ato do Dia do Trabalhador na Avenida Paulista, em São Paulo, no dia 1º de maio de 2025. A cobertura foi complementada por reportagens de veículos como Folha de S.Paulo, O Globo e UOL, que registraram o discurso na íntegra. Dados históricos sobre a Avenida Paulista como palco de manifestações são de domínio público e podem ser verificados em arquivos de instituições como o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) e o Arquivo Público do Estado de São Paulo. As referências a obras culturais mencionadas na análise baseiam-se no cânone literário brasileiro amplamente reconhecido.
Por Renan Filho · 2026-10-03