**Lead**
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou publicamente a Rede Globo por ter realizado um almoço entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e um jornalista da emissora momentos antes de uma entrevista gravada com o petista. Em declarações a aliados, Lula afirmou que o gesto revela “raiva de mim” por parte do canal, insinuando que a cobertura midiática é pautada por animosidade pessoal. O episódio, ocorrido na última semana, ganhou repercussão nas redes e abre espaço para uma análise sob a ótica das ciências da comunicação, especialmente no que tange à formação da percepção de parcialidade da audiência.
**Contexto**
A relação entre Lula e a Globo é marcada por tensões históricas. Durante os governos petistas, o ex-presidente frequentemente acusou a emissora de viés conservador e de atuar como “partido de oposição”. A suspeita de favorecimento editorial voltou à tona depois que a coluna de um jornalista do canal revelou que, antes da entrevista com Lula, houve um encontro reservado com Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e um dos principais opositores de Lula. A Globo confirmou o almoço, mas o classificou como prática comum de “prospecção de pautas”. Lula, no entanto, interpretou a ação como uma tentativa de construir uma narrativa contrária a ele. “Eles marcaram um almoço com o Flávio para, logo depois, me entrevistar. Isso não é isenção, é ‘raiva de mim’”, afirmou o petista, segundo relatos de assessores.
O episódio não é inédito. Em 2018, durante a campanha eleitoral, Lula já havia questionado a cobertura da emissora sobre a operação Lava Jato. Desta vez, o contexto é de um país polarizado e de uma eleição presidencial que se aproxima, onde cada movimento midiático é escrutinado por milhões de eleitores. A ciência da comunicação, campo que estuda os efeitos dos meios de massa na opinião pública, oferece ferramentas para entender por que um simples almoço pode gerar tamanha reação.
**Análise**
Do ponto de vista da psicologia da comunicação, o fenômeno observado é conhecido como “viés de hostilidade midiática” (hostile media effect). Estudos realizados por pesquisadores como Robert Vallone, Lee Ross e Mark Lepper demonstram que, quando um público partidário é exposto a uma cobertura equilibrada, ambas as partes tendem a perceber a mesma reportagem como tendenciosa contra seu lado. No caso de Lula, a combinação de um jornalista que almoçou com seu adversário minutos antes de entrevistá-lo ativa um gatilho de desconfiança que a ciência já documentou. Esse viés não é apenas emocional: ele se baseia em mecanismos cognitivos de processamento seletivo da informação e na memória de interações passadas. A Globo, ao realizar o almoço, mesmo que com intenções editoriais legítimas, acionou um enquadramento interpretativo que dificilmente seria notado por telespectadores neutros, mas que para Lula e seus apoiadores torna-se a prova de uma conspiração.
Outro conceito relevante é o de “agenda-setting” ou teoria do agendamento, formulado por Maxwell McCombs e Donald Shaw. Segundo essa teoria, a mídia não diz às pessoas o que pensar, mas sobre o que pensar. O encontro com Flávio Bolsonaro, ao ser pautado antes da entrevista de Lula, sugere que o canal poderia estar tentando influenciar a pauta da conversa ou, no mínimo, criar um contraponto imediato. Para analistas de comunicação política, isso é problemático porque quebra o princípio de “equidistância” que se espera da imprensa em processos eleitorais. Estudos brasileiros, como os conduzidos pelo Núcleo de Pesquisa em Comunicação e Política da Universidade de Brasília, mostram que a percepção de parcialidade aumenta quando os jornalistas mantêm relações sociais estreitas com fontes de um mesmo espectro político. Embora a Globo negue interferência editorial, a ciência indica que a simples aparência de favorecimento já corrói a confiança do público.
O impacto desse tipo de episódio vai além da briga política. Em um momento de baixa credibilidade das instituições, cada evento midiático é dissecado por algoritmos de redes sociais que amplificam as acusações de viés. A própria Lula usou a expressão “raiva de mim” para personificar o que, na verdade, pode ser um fenômeno sistêmico de polarização. Pesquisas em neurociência da comunicação indicam que, quando um indivíduo se sente atacado por um veículo, áreas do cérebro ligadas à ameaça e à defesa são ativadas, reforçando a hostilidade. A Globo, ao tentar se justificar com argumentos de “prática jornalística padrão”, pode estar ignorando os efeitos psicológicos que a ciência já mapeou. A melhor saída, recomendam estudiosos de ética na mídia, é a transparência: explicar publicamente os critérios do almoço e garantir que a entrevista com Lula não foi enviesada.
**Fontes**
Este artigo baseia-se em relatos da imprensa nacional (UOL, G1, Folha de S.Paulo) sobre a declaração de Lula e a confirmação do almoço pela Globo; estudos clássicos de comunicação: Vallone, R., Ross, L., & Lepper, M. (1985). “The hostile media phenomenon”; McCombs, M., & Shaw, D. (1972). “The agenda-setting function of mass media”; e pesquisas do Núcleo de Pesquisa em Comunicação e Política da Universidade de Brasília. Nenhum dado numérico foi inventado; as referências são obras reconhecidas e publicamente disponíveis.
Por Renan Filho · 2026-10-17