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Opiniao

Por que Lula escreveu uma carta aos evangélicos no segundo turno?

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-24

Na reta final da campanha de 2022, Lula direcionou uma carta aberta aos evangélicos. A análise explora o contexto político, o peso desse eleitorado e as estratégias para reduzir a rejeição em um segmento historicamente conservador.

**Lead**

Em outubro de 2022, já no segundo turno das eleições presidenciais, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) publicou uma carta aberta dirigida ao público evangélico brasileiro. O gesto, incomum em sua trajetória de campanhas, buscava responder a uma resistência histórica e diminuir a rejeição entre um dos segmentos religiosos que mais crescem no país. A carta foi distribuída em igrejas e redes sociais, em um momento em que pesquisas internas mostravam um índice elevado de intenção de voto em Jair Bolsonaro entre evangélicos.

**Contexto**

A relação entre Lula e os evangélicos sempre foi tensa. Durante seus governos anteriores (2003-2010), o petista manteve diálogo com lideranças, mas a ascensão de pautas conservadoras e a polarização política transformaram o segmento em um reduto bolsonarista. Em 2022, cerca de 30% dos eleitores se declaravam evangélicos, segundo pesquisas de boca de urna. No primeiro turno, Bolsonaro conquistou ampla vantagem nesse grupo, conforme apurações da imprensa. A carta foi uma tentativa de Lula de se aproximar, abordando temas como liberdade religiosa, combate à intolerância e o compromisso com a manutenção de isenções fiscais para templos. A estratégia gerou debates: para uns, era um aceno necessário à governabilidade; para outros, uma tentativa de mitigar décadas de distanciamento.

A campanha de Lula já havia sinalizado mudanças. Em agosto, o então candidato gravou vídeos com líderes evangélicos progressistas, como o pastor Ariovaldo Ramos. Mas a escalada da polarização exigia um gesto mais incisivo. A carta, endereçada “Aos pastores e ao povo evangélico brasileiro”, pedia diálogo e afirmava respeito às crenças. O conteúdo foi redigido por uma equipe de comunicação que incluía aliados próximos, como o deputado federal Alencar Santana (PT-SP). A iniciativa, no entanto, não foi unânime no PT; setores do partido viam como uma concessão a pautas que historicamente criticavam.

**Análise**

Por que Lula recorreu a uma carta? O motivo central foi a urgência de reverter a rejeição em um eleitorado que, em 2018, já havia se inclinado fortemente para Bolsonaro. Dados de institutos como o Datafolha, na época, mostravam que a vantagem do então presidente entre evangélicos era de quase 20 pontos percentuais. Uma carta pessoal permitia a Lula driblar o filtro da imprensa e das redes, alcançando diretamente os fiéis nas igrejas. Além disso, a forma escrita transmitia seriedade e compromisso — algo que discursos de palanque nem sempre conseguem em um ambiente de desconfiança.

A jogada também refletia a percepção de que o voto evangélico não é monolítico. Existem correntes progressistas dentro do segmento, como a chamada “Teologia da Libertação” e pastores alinhados à esquerda. Mas o centro de gravidade continua conservador, especialmente em temas como família, aborto e sexualidade. Lula, então, optou por um discurso de respeito e neutralidade, evitando bandeiras que pudessem afastar ainda mais os eleitores. O resultado, na prática, foi uma redução leve da rejeição. Pesquisas de segundo turno apontaram que a intenção de voto de Lula entre evangélicos subiu alguns pontos, embora insuficientes para virar o jogo em algumas regiões. A carta, portanto, não foi um divisor de águas, mas ajudou a conter uma hemorragia.

A repercussão entre líderes evangélicos foi mista. Enquanto pastores históricos, como Ed René Kivitz, elogiaram a iniciativa, figuras ligadas ao bolsonarismo, como o pastor Silas Malafaia, criticaram abertamente, classificando a carta como “eleitoreira”. A polarização, nesse sentido, tornou o diálogo quase impossível — qualquer aceno de Lula era automaticamente interpretado como manobra. Ainda assim, a carta cumpriu um papel tático: mostrou ao eleitor evangélico indeciso que o candidato estava disposto a ouvir. A longo prazo, o episódio sinaliza que a esquerda brasileira precisará repensar sua abordagem com o segmento religioso, que não para de crescer.

**Fontes**

As informações sobre a carta e o contexto eleitoral foram baseadas em reportagens de veículos como G1, UOL, Folha de S.Paulo e Estadão, que cobriram a campanha presidencial de 2022. As análises de rejeição e intenção de voto são extraídas de pesquisas do Datafolha e do Ipec, amplamente divulgadas na imprensa. As declarações de líderes religiosos foram obtidas de matérias publicadas em canais oficiais de notícias, como CNN Brasil e BandNews.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.