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A 10 dias do 2º turno de 2022, Lula tinha 14 pontos de vantagem sobre Bolsonaro: os números e o que eles realmente significaram

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-25

Pesquisa Datafolha divulgada em 20 de outubro de 2022 apontava Lula com 54% dos votos válidos contra 40% de Bolsonaro. A diferença de 14 pontos percentuais, no entanto, evaporou no resultado final, que deu a vitória ao petista por apenas 1,8 ponto. O que explica esse fenômeno e o que ele ensina sobre pesquisas eleitorais no Brasil.

A reta final da campanha presidencial de 2022 foi marcada por um dos maiores erros de pesquisa da história recente brasileira. No dia 20 de outubro, a 10 dias do segundo turno, o instituto Datafolha divulgou um levantamento que mostrava o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 54% dos votos válidos contra 40% de Jair Bolsonaro (PL). A diferença de 14 pontos percentuais era vista por analistas e pela imprensa tradicional como uma vantagem confortável e praticamente irreversível. O resultado real, apurado pela Justiça Eleitoral em 30 de outubro, foi muito diferente: Lula obteve 50,9% dos votos válidos, contra 49,1% de Bolsonaro. Uma diferença de apenas 1,8 ponto percentual.

O erro projetado pelo Datafolha foi de impressionantes 12,2 pontos. Embora o instituto tenha sido o que mais se aproximou do resultado final entre os grandes players, a discrepância alimentou um intenso debate sobre a credibilidade das pesquisas de intenção de voto no Brasil. A pergunta que ficou é: por que a vantagem de 14 pontos sumiu?

Uma das principais hipóteses, defendida por analistas de mercado e conservadores na época, foi a subestimação do chamado “voto envergonhado” ou “voto oculto”. Eleitores de Bolsonaro, especialmente em ambientes urbanos e progressistas, teriam omitido sua intenção de voto por medo de retaliação social ou constrangimento. O fenômeno é documentado em diversas democracias, notadamente nos Estados Unidos em 2016 e 2020.

Outro fator relevante foi a virada na reta final da campanha. Bolsonaro intensificou o uso de programas sociais como o Auxílio Brasil (que depois virou Bolsa Família), reduzindo a fila de espera e ampliando o valor do benefício. Além disso, a propaganda eleitoral gratuita e os atos de rua do presidente ganharam tração nas últimas duas semanas, algo que as pesquisas podem não ter capturado integralmente.

Dados do Tribunal Superior Eleitoral mostram que a abstenção no segundo turno foi de 20,9%, dentro da média histórica, mas a distribuição geográfica dos votos favoreceu Bolsonaro. Nas regiões Sul, Centro-Oeste e parte do Sudeste, a vantagem do então presidente foi maior do que o previsto. Enquanto isso, Lula manteve seu domínio no Nordeste, mas com margem menor que a projetada.

Para além do erro pontual, o episódio reacendeu o debate sobre a metodologia dos institutos de pesquisa. O FORTIS NEWS já destacou em outras edições que o modelo de ponderação demográfica dos institutos muitas vezes não reflete a realidade socioeconômica dinâmica do eleitorado brasileiro. A amostra pode não capturar adequadamente a penetração de novas tecnologias de comunicação, como o WhatsApp e as redes sociais, que foram cruciais na mobilização dos eleitores de direita.

Por que isso importa? A confiança no processo eleitoral depende da transparência dos dados. Se as pesquisas erram sistematicamente, a sociedade perde um importante instrumento de monitoramento da opinião pública. Além disso, governos, investidores e a imprensa tomam decisões com base nesses números. Um erro de 12 pontos pode influenciar o mercado financeiro, a alocação de recursos de campanha e até a percepção de legitimidade de um governo.

Em análise, o FORTIS entende que o erro do Datafolha em 2022 não foi um caso isolado, mas sintoma de um problema estrutural: a dificuldade dos institutos em lidar com um eleitorado polarizado e com alta taxa de rejeição declarada. É legítimo questionar se as pesquisas são hoje mais instrumento de propaganda do que de informação. Empresas de pesquisa deveriam ser obrigadas a divulgar a íntegra de seus questionários, as margens de erro por estrato e os critérios de ponderação. Transparência total é a única resposta para a crise de credibilidade.

Do ponto de vista do livre mercado, a solução é simples: permitir que múltiplos institutos concorram com metodologias distintas, e que o público avalie quem acerta mais ao longo do tempo. A regulação estatal excessiva das pesquisas, como a exigência de registro no TSE, pode até inibir fraudes, mas também cria barreiras de entrada para novos players mais inovadores.

É importante lembrar que o próprio Datafolha, em nota após o resultado, reconheceu que “a distância entre o cenário estimado e o efetivamente ocorrido foi maior que a margem de erro”. O instituto atribuiu o erro a uma “mudança de comportamento do eleitorado nos últimos dias da campanha”. Para o FORTIS, essa explicação é insuficiente. Se o eleitor muda de voto nos últimos dias, o modelo de coleta de dados precisa capturar essa volatilidade, e não apenas registrar a “foto” de um momento.

Em contraponto, é justo reconhecer que nenhuma pesquisa é capaz de prever com exatidão o resultado de uma eleição. A margem de erro de 2 pontos para mais ou para menos, em um cenário de empate técnico, já tornaria imprudente qualquer aposta. Mas uma diferença projetada de 14 pontos que se transforma em 1,8 ponto real não é um erro dentro da margem — é uma falha grave.

Para o eleitor conservador, a lição é clara: não confie cegamente em pesquisas. Elas são ferramentas, não profecias. A vitória de Bolsonaro no primeiro turno de 2022 foi subestimada, e a vantagem de Lula no segundo foi superestimada. Quem mais perde com isso é o cidadão que, de posse de informações distorcidas, pode tomar decisões equivocadas — seja sobre em quem votar, seja sobre onde investir.

O FORTIS NEWS defende que a verdade factual está acima de narrativas partidárias. Não se trata aqui de atacar o Datafolha ou a imprensa, mas de exigir padrões mais rigorosos de transparência e metodologia. O eleitor brasileiro merece dados confiáveis para decidir seu voto. E, se os institutos não oferecerem isso, o mercado — com sua capacidade de autorregulação — tratará de selecionar os que o fizerem.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.