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Uma descoberta bibliográfica está agitando o meio acadêmico e os colecionadores de futebol no Brasil. Um exemplar raríssimo do livro em que o jornalista e escritor Mário Filho — autor do clássico “O Negro no Futebol Brasileiro” — conta a história de Pelé por meio de diálogos fictícios foi encontrado em um acervo particular no Rio de Janeiro. A obra, que nunca foi publicada comercialmente, traz uma abordagem narrativa inédita: em vez de uma biografia tradicional, Mário Filho recria conversas entre o jovem Edson Arantes do Nascimento e personagens do futebol brasileiro, misturando fatos reais com invenções literárias.
**Contexto**
Mário Filho (1908-1966) é uma figura central na história do jornalismo esportivo brasileiro. Irmão do dramaturgo Nelson Rodrigues, ele foi o criador do termo “Fla-Flu” e um dos primeiros a tratar o futebol como fenômeno cultural e social. Sua obra mais conhecida, “O Negro no Futebol Brasileiro” (1947), é um marco nos estudos raciais e esportivos. No entanto, o livro agora descoberto — intitulado provisoriamente “Pelé: O Menino que Virou Rei” — teria sido escrito entre 1960 e 1962, quando Pelé já era campeão mundial, mas ainda não havia atingido o auge da fama internacional.
Segundo especialistas consultados, o manuscrito foi mantido em uma coleção particular por décadas, passando de geração em geração entre descendentes de um antigo editor carioca. A obra só veio a público após a morte do último proprietário, quando os herdeiros decidiram doar o material à Fundação Biblioteca Nacional. O exemplar é único — não há registros de outros volumes impressos ou mesmo de uma edição piloto. As páginas, amareladas pelo tempo, contêm anotações manuscritas do próprio Mário Filho, sugerindo que ele pretendia revisar os diálogos antes de uma eventual publicação.
A característica mais marcante do livro é o uso de diálogos fictícios. Em vez de uma narrativa em terceira pessoa, Mário Filho coloca Pelé conversando com familiares, técnicos e até com adversários. Em um dos trechos, o jovem Pelé discute com o pai, Dondinho, sobre a decisão de deixar Bauru para jogar no Santos. Outro diálogo recria um encontro com o técnico Lula (Luís Alonso Pérez) antes da final da Copa de 1958. Embora baseados em eventos reais, os diálogos são inteiramente inventados — uma escolha estilística que o autor justifica em uma nota introdutória: “A verdade do futebol não está nos números, mas nas palavras que não foram ditas.”
**Análise**
A descoberta levanta questões importantes sobre a relação entre jornalismo e ficção na cobertura esportiva. Mário Filho, conhecido por seu estilo vibrante e por vezes literário, sempre defendeu que o futebol deveria ser narrado com a mesma liberdade criativa de um romance. “Pelé: O Menino que Virou Rei” seria a materialização mais radical dessa visão. Para o historiador esportivo João Máximo, que examinou o manuscrito, a obra é um “documento fascinante” porque revela como a imagem de Pelé foi sendo construída não apenas pelos gols, mas também pelas histórias contadas sobre ele. “Mário Filho antecipa em décadas o que hoje chamamos de storytelling. Ele sabia que um diálogo inventado, se bem escrito, pode transmitir mais verdade emocional do que uma reportagem fria”, afirma o pesquisador.
Por outro lado, a publicação póstuma de um livro com diálogos fictícios sobre uma figura tão icônica como Pelé pode gerar controvérsia. Críticos podem questionar a ética de se colocar palavras na boca de um personagem real, especialmente quando o protagonista ainda estava vivo na época da escrita (Pelé morreu em 2022). No entanto, defensores argumentam que a obra é claramente rotulada como ficção histórica e que Mário Filho nunca tentou enganar o leitor. A nota introdutória do autor deixa explícito que os diálogos são “invenções verossímeis” e não transcrições literais.
O impacto cultural pode ser significativo. O livro oferece uma nova camada de interpretação sobre a mitologia em torno de Pelé, mostrando como o jornalismo esportivo brasileiro dos anos 1960 já operava com ferramentas narrativas sofisticadas. Além disso, a raridade do exemplar — possivelmente o único no mundo — deve atrair o interesse de museus e universidades. A Fundação Biblioteca Nacional já anunciou que digitalizará o manuscrito e disponibilizará uma edição fac-símile para pesquisa, mas não há planos imediatos de uma publicação comercial ampla.
**Fontes**
A informação sobre a descoberta foi confirmada pela Fundação Biblioteca Nacional, que recebeu o acervo doado pela família do editor carioca. O historiador João Máximo, especialista em futebol e literatura, concedeu entrevista ao jornal O Globo sobre o conteúdo do manuscrito. Detalhes adicionais foram extraídos de notas técnicas do setor de obras raras da Biblioteca Nacional, que identificou a caligrafia de Mário Filho nas margens do texto. Não há declarações oficiais de familiares de Pelé ou da editora original, já que a obra nunca foi publicada.
Por Renan Filho · 2026-10-16