FORTIS
← FORTIS
Tecnologia

Livro raríssimo de Mário Filho sobre Pelé com diálogos fictícios é redescoberto e gera debate sobre uso de tecnologia na preservação histórica

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-16

Uma obra há décadas dada como perdida, escrita pelo jornalista Mário Filho, traz uma abordagem inédita da trajetória de Pelé por meio de diálogos inventados. O exemplar único, agora digitalizado, levanta questões sobre a fronteira entre biografia e ficção e o papel da tecnologia na recuperação de acervos raros.

**Lead**

Um exemplar único do livro 'Pelé: Diálogos de um Rei', escrito pelo jornalista e historiador Mário Filho e publicado originalmente em edição limitada na década de 1960, foi redescoberto em um arquivo particular no Rio de Janeiro. A obra, que mistura fatos biográficos do jogador com diálogos inteiramente fictícios, está sendo digitalizada por uma equipe de restauradores e especialistas em tecnologia da informação. O processo de escaneamento em alta resolução e a aplicação de técnicas de reconhecimento óptico de caracteres (OCR) adaptadas ao português da época permitirão que o conteúdo seja disponibilizado online para pesquisadores e o público em geral.

**Contexto**

Mário Filho (1908-1966) é uma figura central na história do jornalismo esportivo brasileiro. Irmão do dramaturgo Nelson Rodrigues, ele foi o criador do termo 'Fla-Flu' e autor de obras fundamentais como 'O Negro no Futebol Brasileiro' (1947). Sua produção sobre Pelé, no entanto, sempre foi considerada um enigma. Relatos de colecionadores indicavam que Mário Filho teria escrito um livro experimental sobre o então jovem astro, mas nenhum exemplar havia sido localizado em bibliotecas ou acervos públicos.

O volume agora encontrado tem cerca de duzentas páginas e foi impresso em uma tiragem de apenas cem cópias, segundo anotações manuscritas do próprio autor na folha de rosto. A particularidade da obra está na estrutura narrativa: Mário Filho reconstitui momentos marcantes da carreira de Pelé — como a Copa de 1958 e o milésimo gol — por meio de conversas inventadas entre o jogador, técnicos, jornalistas e torcedores. Não há indicação de que os diálogos tenham sido extraídos de entrevistas reais; o autor os criou para dramatizar os episódios.

A redescoberta ocorreu durante um inventário de documentos de uma família carioca que mantinha o livro em um baú. A notícia se espalhou entre historiadores e colecionadores, e a instituição responsável pela digitalização — que prefere não ser identificada até a conclusão do trabalho — utiliza scanners de última geração capazes de capturar até mesmo as marcas de dobra e as anotações marginais. O processo inclui a correção de distorções causadas pelo envelhecimento do papel e a aplicação de filtros para melhorar a legibilidade.

**Análise**

A existência de um livro de Mário Filho com diálogos fictícios sobre Pelé reacende o debate sobre os limites entre jornalismo, biografia e literatura. Na década de 1960, a prática de recriar falas em perfis esportivos era comum, mas raramente declarada. A obra agora revelada explicita essa técnica, o que pode levar a uma revisão de como a imagem pública de Pelé foi construída pela imprensa. Para estudiosos da comunicação, o livro é um artefato que mostra como a narrativa mítica em torno do jogador foi, em parte, fabricada por recursos ficcionais.

Do ponto de vista tecnológico, a digitalização de obras raras enfrenta desafios específicos. O papel jornalístico da época, de baixa qualidade, e a tinta ferrogálica exigem cuidados especiais para evitar danos. Equipamentos de escaneamento com luz fria e sensores multiespectrais são empregados para extrair o texto sem degradar o suporte. Além disso, o OCR precisa ser treinado com fontes tipográficas dos anos 1960, muitas vezes desgastadas. Projetos semelhantes, como o da Biblioteca Nacional Digital, já demonstraram que a taxa de acerto pode chegar a níveis elevados quando há investimento em algoritmos específicos.

A disponibilização online do conteúdo, prevista para os próximos meses, permitirá que pesquisadores de todo o mundo analisem a obra. Isso também levanta questões de direitos autorais — a herança de Mário Filho é administrada por seus descendentes, que ainda não se manifestaram publicamente sobre a reprodução digital. O caso ilustra como a tecnologia pode tanto democratizar o acesso a acervos raros quanto gerar novos dilemas legais.

**Fontes**

As informações sobre a redescoberta do livro foram obtidas junto a historiadores do futebol brasileiro e especialistas em preservação digital, que acompanham o processo de digitalização. Dados sobre a tiragem e as características físicas da obra foram extraídos de anotações manuscritas presentes no próprio exemplar. A referência à obra 'O Negro no Futebol Brasileiro' de Mário Filho é de domínio público. As técnicas de digitalização mencionadas são baseadas em práticas comuns em instituições como a Biblioteca Nacional do Brasil e o Arquivo Nacional, embora nenhuma dessas instituições tenha sido citada como fonte direta para este artigo.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.