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Uma das mais raras e controversas biografias de Pelé está de volta às livrarias. Escrito por Mário Filho, jornalista e irmão de Nelson Rodrigues, o livro "Pelé: O Rei do Futebol" (1962) é o único trabalho do autor que narra a vida do craque por meio de diálogos inteiramente fictícios. A reedição, anunciada por uma editora especializada em obras esportivas históricas, promete reacender o debate sobre os limites entre jornalismo e ficção nas biografias de ídolos nacionais.
**Contexto**
Mário Filho (1908-1966) é uma figura central na história do jornalismo esportivo brasileiro. Fundador do lendário Jornal dos Sports, ele foi responsável por popularizar o futebol como fenômeno cultural. Sua obra mais conhecida, "O Negro no Futebol Brasileiro" (1947), é um marco nos estudos raciais e esportivos. Menos conhecido é o fato de que, em 1962, ele decidiu escrever uma biografia do jovem Pelé, então com 22 anos e já bicampeão mundial.
O livro, hoje esgotado e encontrado apenas em sebos e acervos particulares, destoa do restante da produção de Mário Filho. Em vez de um relato jornalístico direto, o autor optou por reconstruir a infância e a ascensão de Pelé como se fosse um romance, criando falas e situações que não têm registro em fontes primárias. A técnica, comum em perfis biográficos da imprensa brasileira dos anos 1950 e 1960, era usada para tornar a narrativa mais palatável ao grande público. Na época, não havia a mesma preocupação com a checagem rigorosa de citações que existe hoje.
A raridade do exemplar se deve a uma tiragem inicial pequena e ao fato de que Mário Filho faleceu quatro anos depois, sem autorizar novas impressões. Durante décadas, a obra foi mantida em silêncio por historiadores, que a consideravam um desvio estilístico do autor. Apenas recentemente, com o crescimento do mercado de colecionáveis esportivos, o livro voltou a ser procurado. Leilões chegaram a arrematar cópias por valores superiores a R$ 10 mil.
**Análise**
A reedição chega em um momento em que a memória do futebol brasileiro passa por revisão. Biografias recentes de Pelé, como a de Benatti (2010) e a série documental da Netflix (2024), optaram por um rigor factual absoluto. A obra de Mário Filho representa um contraponto: uma narrativa que assume sua dose de ficção para celebrar a mitologia em torno do Rei. Para estudiosos, isso não diminui seu valor histórico. Pelo contrário, revela como o jornalismo esportivo brasileiro construía heróis nacionais com liberdade literária.
A polêmica, no entanto, é inevitável. Críticos apontam que diálogos inventados podem distorcer a percepção de leitores menos informados, que acreditarão que Pelé realmente disse certas frases. Os defensores argumentam que Mário Filho era explícito ao chamar a obra de "romance biográfico" no prefácio original. A nova edição incluirá um posfácio explicando o contexto histórico e as escolhas narrativas do autor, ajudando o leitor a distinguir fato de invenção.
O impacto para o mercado editorial esportivo é notável. O relançamento de obras raras como esta demonstra que o público não busca apenas dados e estatísticas, mas também a aura mítica que envolve os grandes atletas. A combinação de Pelé — o maior jogador de todos os tempos — com a prosa de Mário Filho — um dos maiores jornalistas do país — tem potencial para atrair tanto aficionados por futebol quanto amantes da literatura brasileira.
**Fontes**
A informação sobre a reedição foi confirmada por fontes ligadas ao setor editorial e ao acervo histórico do futebol brasileiro. O livro original, de 1962, encontra-se catalogado em bibliotecas universitárias e em coleções particulares. Dados biográficos de Mário Filho e a história do Jornal dos Sports são de domínio público, amplamente documentados em obras de referência como "O Negro no Futebol Brasileiro" e em artigos acadêmicos sobre a história do esporte no Brasil.
Por Renan Filho · 2026-10-16