**Lead**
Uma raridade editorial volta ao centro do debate cultural brasileiro. Escrito por Mário Filho, o jornalista que dá nome ao Maracanã, o livro "Pelé: o Atleta do Século" — publicado originalmente em 1960 e há décadas esgotado — chega às livrarias do país em edição de colecionador, com direito a ensaio crítico e fac-símile da capa original. A obra, que narra a ascensão de Edson Arantes do Nascimento, então um jovem de 19 anos já consagrado na Copa da Suécia, contém diálogos inteiramente fictícios criados pelo autor, um recurso literário que, à época, não foi explicitado ao leitor. A nova edição, organizada por uma editora independente do Rio de Janeiro, traz notas explicativas e um prefácio assinado por um pesquisador da história do futebol, mas não esconde o incômodo: afinal, o livro é biografia ou ficção?
**Contexto**
Mário Filho foi um dos nomes mais influentes do jornalismo esportivo brasileiro nas décadas de 1930 a 1960. Irmão do dramaturgo Nelson Rodrigues, ele ajudou a popularizar crônicas de futebol com linguagem vibrante e adjetivação generosa. Sua obra mais famosa, "O Negro no Futebol Brasileiro", de 1947, é até hoje referência para estudiosos das relações raciais no esporte. Menos conhecido, porém, é o livro dedicado a Pelé, lançado quando o craque ainda não tinha completado 20 anos. Naquele momento, Pelé já era campeão mundial pela Seleção Brasileira e despontava como o principal jogador do Santos, mas ainda não era o mito global que se tornaria nas décadas seguintes.
A edição original de 1960, publicada pela então Editora Sampaio, teve tiragem restrita. Os diálogos atribuídos a Pelé, a dirigentes do Santos e a familiares do jogador foram reconstruídos por Mário Filho a partir de conversas informais, impressões de vestiário e relatos de terceiros — um procedimento comum na imprensa esportiva da época, mas que hoje seria classificado sem rodeios como invenção. Em alguns trechos, o autor descreve cenas íntimas da infância do jogador em Bauru, interior de São Paulo, com conversas entre Dona Celeste e Seu Dondinho, pais de Pelé, que jamais foram registradas em áudio ou documento.
Especialistas em literatura e jornalismo apontam que a prática de reconstruir diálogos era relativamente frequente no Brasil do século XX, sobretudo em perfis de grandes personalidades. Publicações como a revista "O Cruzeiro" e jornais como o "Diário Carioca" recorriam a esse tipo de artifício para dar vivacidade às reportagens. O próprio Nelson Rodrigues, irmão de Mário Filho, construiu parte de sua obra cronística a partir de cenas imaginadas ou dramatizadas — algumas tão críveis que acabaram incorporadas ao imaginário popular. No caso de Mário Filho, o livro sobre Pelé, embora comercializado como biografia, trazia no texto uma atmosfera literária que se aproximava da fábula.
**Análise**
A redescoberta do livro reabre uma pergunta essencial sobre o jornalismo esportivo: até que ponto é aceitável preencher lacunas com ficção para construir uma narrativa mais envolvente? No contexto dos anos 1960, a fronteira entre reportagem e literatura era tênue. Mário Filho não tinha a intenção de enganar o leitor; seguia uma convenção editorial que valorizava a fluência narrativa e o caráter heroico das grandes trajetórias. A reedição, no entanto, propõe um olhar crítico: a obra deve ser lida como um documento histórico de época — ou como uma peça de ficção inspirada em fatos reais? A resposta provavelmente está entre os dois gêneros.
Para o mercado editorial, o lançamento representa também uma aposta em um segmento que cresce de forma consistente no Brasil: livros de futebol com tratamento de colecionador. Obra rara, porém acessível ao grande público — um paradoxo que os organizadores da edição buscam explorar ao incluir textos de apoio e notas que contextualizam passagens controversas. O leitor moderno é convidado a ler com distanciamento crítico, sabendo que as falas atribuídas a Pelé e a seus familiares são uma recriação literária de Mário Filho, não transcrições jornalísticas. O próprio Pelé, em vida, raramente comentou os detalhes do livro; sua biografia oficial, escrita por revisões posteriores, optou por uma abordagem mais documental.
**Fontes**
A reportagem se baseia em informações públicas da organização da nova edição, em textos acadêmicos sobre a obra de Mário Filho e em registros históricos da imprensa brasileira, incluindo o acervo da Biblioteca Nacional. A comparação entre a edição de 1960 e a nova versão foi feita a partir de exemplares consultados em bibliotecas e arquivos digitais. As referências biográficas sobre Mário Filho e Pelé foram extraídas de obras consagradas e de sítios oficiais de instituições de memória do futebol brasileiro.
Por Renan Filho · 2026-10-16