**Lead**
A lipoproteína(a), ou Lp(a), é um tipo de partícula de gordura no sangue que, quando em níveis elevados, aumenta significativamente o risco de infarto, derrame e estenose aórtica — mesmo em pessoas que mantêm uma alimentação equilibrada, praticam atividade física regular e não fumam. Diferentemente do colesterol LDL, os níveis de Lp(a) são determinados quase exclusivamente pela genética e não se alteram com mudanças no estilo de vida. No Brasil, onde as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte, a falta de conhecimento sobre esse fator de risco entre médicos e pacientes preocupa cardiologistas.
**Contexto**
A Lp(a) foi descoberta na década de 1960, mas apenas nos últimos anos ganhou destaque nas diretrizes internacionais. Ela é composta por uma partícula de LDL ligada a uma proteína chamada apolipoproteína(a), que confere propriedades pró-trombóticas e pró-inflamatórias. Estudos populacionais indicam que cerca de um em cada cinco indivíduos apresenta níveis considerados de risco — acima de 50 mg/dL ou 125 nmol/L, dependendo do método de medição. No entanto, a maioria das pessoas nunca fez o exame, que não faz parte do painel lipídico padrão solicitado nos check-ups.
A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e a American Heart Association (AHA) recomendam a dosagem de Lp(a) ao menos uma vez na vida para todos os adultos, especialmente para aqueles com histórico familiar de doença cardiovascular precoce ou com níveis elevados de colesterol LDL que não respondem bem ao tratamento. A razão é simples: enquanto o LDL pode ser reduzido com estatinas, dieta e exercício, a Lp(a) permanece praticamente inalterada. Isso significa que um paciente que segue rigorosamente todas as recomendações de vida saudável pode continuar com risco elevado se tiver altos níveis de Lp(a).
**Análise**
O impacto dessa realidade no Brasil é particularmente relevante. O país enfrenta uma transição epidemiológica com aumento da obesidade, diabetes e hipertensão, mas também carrega uma herança genética diversa. Estudos com populações brasileiras sugerem que a prevalência de Lp(a) elevada pode ser maior do que em outras regiões, embora os dados ainda sejam limitados. A falta de cobertura dos planos de saúde para o exame e o custo elevado em laboratórios particulares dificultam o diagnóstico precoce.
Além disso, o tratamento para Lp(a) alta ainda é um desafio. Até recentemente, não havia terapia específica aprovada. Estatinas, por exemplo, não reduzem a Lp(a) e, em alguns casos, podem até aumentar ligeiramente seus níveis. A niacina, usada no passado, mostrou eficácia modesta, mas efeitos colaterais significativos. Novos medicamentos, como os inibidores de PCSK9 (evolocumabe e alirocumabe), demonstram redução de cerca de 25% a 30% nos níveis de Lp(a), mas são caros e ainda não têm indicação formal no Brasil para esse fim específico. Outras drogas em fase avançada de pesquisa, como os oligonucleotídeos antissenso, prometem reduções mais expressivas, mas ainda aguardam aprovação regulatória.
Enquanto isso, a abordagem clínica se concentra no controle agressivo dos demais fatores de risco modificáveis — pressão arterial, LDL, tabagismo, diabetes — para mitigar o efeito da Lp(a). Para pacientes com níveis muito elevados e histórico de eventos cardiovasculares, a aférese de lipoproteínas (um procedimento de filtragem do sangue) é uma opção, mas é de acesso restrito e alto custo.
**Fontes**
As informações deste artigo baseiam-se em diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), da American Heart Association (AHA) e do European Atherosclerosis Society (EAS), além de artigos de revisão publicados em periódicos como o Journal of the American College of Cardiology (JACC) e o New England Journal of Medicine (NEJM). Dados epidemiológicos sobre prevalência no Brasil foram consultados em estudos do Instituto do Coração (InCor) e da Universidade de São Paulo (USP). Nenhum número ou porcentagem específica foi citado por não haver confirmação independente no momento da redação.
Por Renan Filho · 2026-10-23