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Uma onda de descontentamento entre eleitores latinos nos Estados Unidos, particularmente no Texas, está reconfigurando as alianças políticas tradicionais e abrindo espaço para uma ofensiva democrata em um estado historicamente republicano. O fenômeno, que ganhou força nos últimos meses, não se limita às fronteiras americanas: analistas apontam que uma eventual vitória democrata no Texas poderia redefinir a política externa dos EUA para a América Latina, com impactos diretos nas relações comerciais e diplomáticas com o Brasil.
**Contexto**
O Texas, segundo estado mais populoso dos EUA e com uma economia que supera a de muitos países, tem uma população latina que representa cerca de 40% do total. Nas eleições de 2020, Donald Trump conquistou o estado por uma margem apertada, mas pesquisas recentes indicam que o apoio republicano entre latinos está em declínio acentuado. Dados do Pew Research Center mostram que, embora Trump tenha ampliado sua base entre latinos em 2020, a insatisfação com suas políticas de imigração — como a separação de famílias na fronteira e o fim do DACA — cresceu entre os eleitores mais jovens e de segunda geração.
A situação se agravou com a crise econômica pós-pandemia. Muitos latinos, que trabalham em setores como construção civil, serviços e agricultura, sentiram o peso da inflação e da escassez de mão de obra. A promessa de Trump de deportações em massa e o discurso anti-imigrante, que antes atraía parte da comunidade, agora é visto como uma ameaça direta a famílias e negócios locais. Organizações como a League of United Latin American Citizens (LULAC) e o Voto Latino relataram um aumento significativo no registro de eleitores latinos no Texas, com uma inclinação clara para o Partido Democrata.
O Partido Democrata, por sua vez, intensificou sua presença no estado. A campanha de Joe Biden e Kamala Harris investiu pesadamente em anúncios em espanhol e em eventos comunitários, focando em temas como reforma migratória, acesso à saúde e educação. A nomeação de figuras como Julián Castro, ex-prefeito de San Antonio, e a ascensão de Beto O'Rourke, que quase venceu a eleição para o Senado no Texas em 2018, são exemplos de uma estratégia que busca capitalizar a insatisfação latina.
**Análise**
A mudança no eleitorado texano tem implicações profundas. O Texas é o maior reduto republicano em número de votos eleitorais (40). Se os democratas conseguirem virar o estado, o caminho para a Casa Branca em 2024 e 2028 se tornaria muito mais difícil para os republicanos. Mas o impacto vai além da política doméstica americana. Uma administração democrata com forte apoio latino tenderia a adotar uma política externa mais cooperativa com a América Latina, incluindo o Brasil.
Para o Brasil, isso pode significar um alívio nas tensões comerciais e diplomáticas que marcaram o governo Trump. Durante a gestão republicana, o Brasil enfrentou tarifas sobre o aço e o alumínio, além de pressões sobre a política ambiental da Amazônia. Um governo democrata, por outro lado, poderia retomar o diálogo sobre acordos bilaterais, facilitar investimentos em infraestrutura e energia renovável, e apoiar a entrada do Brasil na OCDE. Além disso, a comunidade brasileira nos EUA, estimada em mais de 1,5 milhão de pessoas, também seria beneficiada por políticas de imigração mais brandas.
No entanto, especialistas alertam que a decepção com Trump não se traduz automaticamente em apoio incondicional aos democratas. Muitos latinos são conservadores em questões sociais e religiosas, o que os torna céticos em relação a pautas progressistas. A chave para os democratas será equilibrar o discurso de inclusão com propostas econômicas que atendam às necessidades imediatas da comunidade, como empregos e segurança pública.
**Fontes**
- Pew Research Center: relatórios sobre tendências eleitorais latinas nos EUA (2023-2024). - League of United Latin American Citizens (LULAC): comunicados sobre registro de eleitores no Texas. - Voto Latino: dados de engajamento eleitoral entre latinos. - Departamento de Estado dos EUA: histórico de tarifas e acordos comerciais com o Brasil. - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): estimativas da diáspora brasileira nos EUA.
Por Renan Filho · 2026-10-29