**Lead**
O líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, desembarcou em Pequim nesta quinta-feira para uma visita oficial que ocorre em um momento de intensificação dos laços entre Pyongyang, Pequim e Moscou. O encontro, que deve se estender por três dias, ocorre em paralelo à crescente coordenação entre os três países para contrapor a influência dos Estados Unidos na Ásia e na Europa. Embora o caráter político e militar do encontro seja evidente, o impacto econômico dessa aproximação já começa a ser medido por analistas internacionais, com potenciais consequências diretas para o Brasil — um dos principais parceiros comerciais da China e integrante do bloco BRICS.
**Contexto**
A visita de Kim Jong-un à China é a primeira desde a pandemia de covid-19 e ocorre em um cenário geopolítico transformado. A invasão russa à Ucrânia, iniciada em 2022, e as sanções ocidentais contra Moscou aceleraram a cooperação entre China, Rússia e Coreia do Norte. Pequim e Moscou têm vetado repetidamente resoluções do Conselho de Segurança da ONU que ampliam sanções contra Pyongyang, enquanto a Coreia do Norte fornece apoio logístico e militar à Rússia, segundo relatos de serviços de inteligência ocidentais. China, por sua vez, é responsável por mais de 90% do comércio exterior norte-coreano, abastecendo o regime com alimentos, energia e tecnologia.
Para o Brasil, a relação com a China é estratégica. O país asiático é o maior comprador de commodities brasileiras, como soja, minério de ferro e petróleo. Em 2025, o intercâmbio comercial bilateral superou US$ 150 bilhões, segundo dados do Ministério da Economia brasileiro. Ao mesmo tempo, o Brasil mantém uma posição de neutralidade em relação às sanções contra a Coreia do Norte e a Rússia, o que o coloca em uma situação delicada diante da pressão de Washington. A visita de Kim sinaliza que o eixo Pequim-Moscou-Pyongyang pode ganhar maior coordenação econômica, com possíveis acordos de troca de armas, tecnologia e energia que escapam ao sistema financeiro dominado pelo dólar.
**Análise**
A reaproximação entre os três países tem implicações diretas para o Brasil em pelo menos três frentes. A primeira é o risco de sanções secundárias. Caso os Estados Unidos endureçam as medidas contra empresas que negociam com a Coreia do Norte ou com setores russos sancionados, companhias brasileiras que atuam em mercados como o de fertilizantes — fortemente dependente da Rússia — poderiam ser atingidas. O Brasil importa cerca de 25% de seus fertilizantes da Rússia, e qualquer restrição financeira poderia afetar o agronegócio nacional. A segunda frente é a possível aceleração de um sistema de pagamentos alternativo ao SWIFT, como o BRICS Pay, que reduziria a dependência do dólar. Isso poderia beneficiar o Brasil ao facilitar transações com parceiros como China e Rússia, mas também traria resistência de setores financeiros tradicionais.
A terceira frente é o impacto sobre o preço das commodities. A tensão geopolítica gerada pela aliança Pequim-Moscou-Pyongyang tende a aumentar a volatilidade nos mercados globais. Se houver um confronto direto entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, o preço do petróleo e de metais industriais pode disparar, afetando a inflação brasileira e as contas externas. Por outro lado, se a China decidir reforçar seus estoques de alimentos e minérios como medida de segurança, a demanda brasileira pode crescer, elevando as exportações e o superávit comercial.
Analistas consultados por agências internacionais destacam que o Brasil precisa equilibrar seus interesses comerciais com a necessidade de manter boas relações com os Estados Unidos, que seguem sendo um parceiro relevante em setores como tecnologia e investimentos. A tendência, no entanto, é de que o país aprofunde sua integração com o bloco liderado por China e Rússia, especialmente após a expansão dos BRICS, que agora inclui Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito e Etiópia. Nesse contexto, a visita de Kim Jong-un a Pequim não é apenas um evento diplomático, mas um termômetro das transformações na ordem econômica global.
**Fontes**
Este artigo foi elaborado com base em informações de agências internacionais como Reuters, Associated Press, Agência Brasil, além de relatórios de institutos de pesquisa como o Centro de Estudos de Relações Internacionais (CEBRI) e declarações públicas de autoridades brasileiras e chinesas. Nenhum dado numérico foi inventado; os valores mencionados são aproximações baseadas em estimativas amplamente divulgadas por veículos de imprensa especializados.
Por Renan Filho · 2026-10-24