**Lead**
A Justiça do Rio de Janeiro negou pedido de bloqueio de R$ 325 milhões depositados em uma casa de apostas por um amigo do deputado estadual Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A decisão, proferida em caráter liminar, mantém os valores na plataforma enquanto o caso segue sob segredo de Justiça. O pedido teria sido feito pelo próprio depositante, que alegou ter sido coagido a transferir o dinheiro para a bet, mas o magistrado entendeu que não havia indícios suficientes de fraude ou ilicitude que justificassem a medida de urgência.
**Contexto**
A informação foi revelada inicialmente pela revista Veja e confirmada por fontes ligadas ao caso. Segundo os autos, o amigo de Flávio Bolsonaro — cujo nome não foi divulgado — teria depositado a quantia em uma plataforma de apostas esportivas e, em seguida, arrependido-se, pedindo à Justiça que ordenasse o bloqueio dos valores. O argumento central era de que o depósito teria sido feito sob pressão ou em circunstâncias que indicariam possível golpe ou uso indevido da conta.
No entanto, o juiz responsável pelo caso considerou que o pedido não apresentava provas contundentes de coação ou de que a plataforma tivesse agido de má-fé. A decisão reforça que, em casos de litígios envolvendo contratos privados e empresas de apostas, a Justiça costuma exigir elementos objetivos de fraude antes de interferir no fluxo financeiro. O advogado do depositante já teria recorrido da decisão, mas o processo permanece em sigilo.
O caso ganha relevância por envolver uma pessoa próxima a Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Flávio já foi alvo de investigações sobre supostas irregularidades em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), incluindo o caso conhecido como “rachadinha”, que envolvia a devolução de parte dos salários de funcionários. Embora não haja qualquer indício de ligação entre o dinheiro das apostas e as investigações anteriores, a coincidência reacende o interesse público sobre a origem de grandes quantias movimentadas em plataformas de apostas.
O setor de bets no Brasil cresceu exponencialmente nos últimos anos, movimentando bilhões de reais. Segundo o Banco Central, as apostas online movimentaram cerca de R$ 20 bilhões por mês em 2024, embora os números exatos sejam de difícil verificação. A regulamentação do setor, sancionada em dezembro de 2023, estabeleceu regras para autorização de empresas, mas a fiscalização ainda é incipiente. Depósitos de alto valor, como o que originou o processo, são rastreáveis, mas não necessariamente suspeitos, o que dificulta o trabalho de inteligência financeira.
**Análise**
A negativa do bloqueio não encerra o caso, mas abre precedente sobre como a Justiça brasileira trata disputas envolvendo grandes valores em cassinos online. Especialistas apontam que a decisão é tecnicamente correta à luz do Código de Processo Civil, que exige probabilidade do direito e perigo de dano para conceder tutela de urgência. Sem provas de que a bet agiu ilegalmente, o juiz não poderia congelar os recursos de ofício, sob pena de violar a livre iniciativa e a segurança jurídica dos contratos.
Ao mesmo tempo, o episódio expõe a fragilidade dos mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro no setor. Embora as bets sejam obrigadas a comunicar operações suspeitas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a supervisão ainda depende de estruturas robustas que muitas empresas não possuem. Um depósito de R$ 325 milhões — valor equivalente ao orçamento de médias prefeituras — deveria ter acionado automaticamente alertas de anomalia, mas não há confirmação de que isso tenha ocorrido. A situação reforça a necessidade de aprimorar a regulação, com mecanismos de monitoramento em tempo real e penalidades mais duras para o descumprimento das regras.
**Fontes**
As informações deste artigo foram baseadas na reportagem da revista Veja, que teve acesso aos autos do processo, e em reportagens anteriores do portal UOL e do jornal O Globo sobre a movimentação financeira de Flávio Bolsonaro e o crescimento das apostas no Brasil. O FORTIS NEWS não teve acesso direto ao conteúdo do processo, que tramita em segredo de Justiça.
Por Renan Filho · 2026-09-30