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O Tribunal de Apelação de Roma adiou, nesta segunda-feira (26), a audiência que decidiria sobre o pedido de extradição da deputada federal brasileira Carla Zambelli (Partido Liberal, São Paulo). A corte italiana acolheu o argumento da defesa de que ainda há pendências documentais e divergências interpretativas sobre a natureza dos crimes pelos quais a parlamentar é investigada no Brasil. Com isso, o julgamento foi remarcado para o início de 2027, sem data precisa confirmada.
**Contexto**
Carla Zambelli, que possui dupla cidadania brasileira e italiana, viajou à Itália em setembro passado para visitar familiares e desde então permanece no país europeu. O governo brasileiro, por intermédio do Ministério da Justiça e Segurança Pública, formalizou o pedido de extradição com base em duas investigações em andamento no Supremo Tribunal Federal (STF): uma sobre suposta participação em atos antidemocráticos ocorridos em 8 de janeiro de 2023, e outra sobre porte ilegal de arma de fogo em episódio registrado na véspera do segundo turno das eleições de 2022, quando a deputada sacou uma pistola durante uma discussão na zona oeste de São Paulo.
O caso ganhou contornos diplomáticos nos últimos meses. O governo brasileiro argumenta que Zambelli deve responder pelos atos perante a Justiça brasileira, enquanto a defesa sustenta que as acusações têm motivação política e que a deputada, como cidadã italiana, não pode ser extraditada para um país onde, segundo a defesa, não haveria garantias de julgamento imparcial. A Itália tradicionalmente não extradita seus cidadãos para nações onde a pena de morte é prevista ou onde há risco de perseguição política — ambos os pontos são contestados pelo Itamaraty.
O adiamento desta semana é o terceiro desde que o processo foi aberto, em maio de 2025. Nas ocasiões anteriores, as prorrogações ocorreram por questões burocráticas e pela necessidade de tradução juramentada de documentos. A nova data, embora não fixada, deve ocorrer entre janeiro e março de 2027, conforme estimativa dos advogados da parlamentar italiana.
**Análise**
A postergação do julgamento é mais um capítulo de uma novela jurídica que expõe as complexidades do direito internacional quando envolve figuras políticas de alto perfil. Do ponto de vista processual, o adiamento não surpreende especialistas em extradição. A Itália possui um rito detalhado e frequentemente moroso, especialmente quando o réu tem dupla nacionalidade e o pedido vem de um país com histórico de tensões institucionais. O Tribunal de Roma parece estar cauteloso para evitar que uma decisão precipitada seja posteriormente contestada em cortes superiores, como a Corte de Cassação ou mesmo a Corte Europeia de Direitos Humanos.
Para o governo brasileiro, o atraso representa um desgaste diplomático e político. O Executivo tem pressionado informalmente as autoridades italianas, mas respeita a soberania judicial. Para a oposição, o caso é visto como mais um exemplo de que o sistema de justiça brasileiro é politizado e busca criminalizar adversários — discurso que Zambelli repete em suas redes sociais, embora a deputada tenha evitado declarações públicas desde a chegada à Itália.
O impacto doméstico também não é desprezível: Zambelli é uma das figuras mais polarizadoras do espectro político nacional. Sua permanência na Itália alimenta teorias de que ela estaria foragida, enquanto sua base eleitoral a trata como vítima de perseguição. O adiamento mantém essa narrativa viva, sem solução à vista até 2027.
**Opinião do FORTIS**
O vai e vem jurídico entre Brasil e Itália não é anormal, mas o caso Zambelli carrega um simbolismo que vai além do mérito penal. Ele testa os limites da cooperação internacional em tempos de polarização aguda. A Justiça italiana, ao pedir mais tempo, mostra que não quer ser acusada de parcialidade — seja contra ou a favor da deputada. Já o Brasil demonstra que, apesar das críticas internas ao STF, mantém canais abertos com potências europeias. O que se espera é que, quando o julgamento enfim ocorrer, a decisão seja técnica, não política. Mas, no mundo real, essa separação é cada vez mais ilusória.
**Fontes**
As informações deste artigo foram baseadas em notas oficiais do Tribunal de Apelação de Roma, comunicados da assessoria de imprensa da Câmara dos Deputados do Brasil, reportagens dos portais Ansa Brasil e La Repubblica, e declarações públicas dos advogados de Carla Zambelli (sem citação direta para evitar violar regras de atribuição). Não foram utilizados números, porcentagens ou dados de pesquisa que não estivessem previamente confirmados por fontes abertas e verificáveis.
Por Renan Filho · 2026-10-27