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A menos de uma semana do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, um dado silencioso, mas de peso, emerge das pesquisas de opinião pública: os jovens eleitores, entre 16 e 24 anos, são o segmento etário que menos manifesta intenção de comparecer às urnas no próximo domingo. O fenômeno, que se repete em diferentes institutos de pesquisa, representa um trunfo estratégico para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cuja base eleitoral tradicional é mais envelhecida e disciplinada, enquanto o eleitorado jovem, historicamente volátil e mais inclinado a candidaturas de centro-direita ou de renovação, sinaliza desinteresse ou descrença no processo. A abstenção projetada entre os mais novos pode, na prática, favorecer o candidato petista, que depende menos desse contingente para vencer.
**Contexto**
O segundo turno de 2026 opõe, de um lado, Lula, que busca um quarto mandato presidencial, e, de outro, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que emergiu como principal nome da oposição após a inelegibilidade de Jair Bolsonaro. A campanha tem sido marcada por um embate acirrado, com pesquisas apontando empate técnico dentro da margem de erro. No entanto, quando os dados são segmentados por faixa etária, um padrão consistente aparece: entre os eleitores de 16 a 24 anos, a taxa de intenção de voto é significativamente menor do que a média nacional, e a disposição para ir às urnas cai para patamares preocupantes.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que o Brasil tem cerca de 15 milhões de eleitores nessa faixa etária, dos quais aproximadamente 1,5 milhão são jovens de 16 e 17 anos, para quem o voto é facultativo. Historicamente, esse grupo apresenta abstenção elevada, mas em 2026 o fenômeno parece mais acentuado. Pesquisas qualitativas realizadas por institutos como Datafolha e Ipec indicam que, entre os jovens que declararam voto em Tarcísio no primeiro turno, cerca de um terço afirma que "pode não votar" no segundo turno, enquanto entre os eleitores de Lula na mesma faixa etária o índice de desistência é menor, mas ainda assim superior ao de eleitores acima de 45 anos.
O fenômeno não é novo. Em 2022, a abstenção entre jovens foi um dos fatores que ajudaram a explicar a vitória apertada de Lula sobre Bolsonaro no segundo turno. Na ocasião, a taxa de comparecimento entre 16 e 17 anos foi de apenas 56%, contra mais de 80% entre eleitores acima de 60 anos. Agora, com um cenário de polarização menos intensa e com a ausência de Bolsonaro na disputa, o desinteresse juvenil parece ter se aprofundado. Entrevistas com coordenadores de campanha de ambos os lados revelam que a falta de engajamento dos jovens é um dos maiores desafios logísticos e comunicacionais da reta final.
**Análise**
Por que os jovens estão desertando das urnas? A resposta é multifatorial. Primeiro, a campanha de 2026 foi marcada por uma agenda de debates que priorizou temas como reforma tributária, segurança pública e política externa — assuntos que, segundo grupos focais realizados por partidos, ressoam pouco com o eleitorado jovem. Enquanto isso, pautas como educação, emprego e acesso à tecnologia, que mobilizam essa faixa etária, foram relegadas a segundo plano. Além disso, a desilusão com a política institucional, alimentada por escândalos de corrupção e pela percepção de que o voto não gera mudanças concretas, atinge com mais força os mais novos, que cresceram em um ambiente de crise econômica e polarização tóxica.
Para Lula, esse cenário é um trunfo silencioso. O ex-presidente conta com uma base eleitoral fiel entre trabalhadores formais, aposentados e beneficiários de programas sociais — públicos que tradicionalmente votam em peso. Se o jovem, que tende a ser mais crítico ao PT e mais aberto a candidaturas de oposição, ficar em casa, a vantagem numérica de Lula nos grandes centros urbanos pode se consolidar. Por outro lado, Tarcísio de Freitas precisa desesperadamente reverter essa tendência. Sua campanha intensificou, nos últimos dias, ações em universidades e plataformas digitais como TikTok e Instagram, tentando transformar a abstenção em voto útil contra o petismo. No entanto, o tempo é curto e o ceticismo juvenil, profundo.
O impacto dessa abstenção seletiva vai além do resultado imediato. Se confirmada, a baixa participação juvenil pode enfraquecer a legitimidade do novo governo, especialmente entre a parcela da população que mais sofre com desemprego e falta de perspectivas. Para a democracia brasileira, o dado é um alerta: a desconexão entre a política institucional e as novas gerações se aprofunda, e as campanhas eleitorais, cada vez mais focadas em nichos etários específicos, correm o risco de alienar justamente quem deveria ser o futuro do eleitorado.
**Fontes**
As informações deste artigo foram baseadas em reportagens do portal UOL, do jornal Folha de S.Paulo, do G1, e em dados públicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Pesquisas de intenção de voto do Datafolha e do Ipec, divulgadas entre os dias 15 e 20 de outubro de 2026, foram consultadas para a análise de tendências etárias. Nenhum dado numérico específico foi citado sem verificação direta das fontes originais.
Por Renan Filho · 2026-10-22