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Esportes

Rádio brasileira cobriu decisão da Libertadores de 1968 entre Palmeiras e Estudantes com alcance nacional

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-23

A partida que definiu o título sul-americano foi acompanhada por milhões de brasileiros via ondas sonoras, em uma era sem transmissão televisiva generalizada.

**Lead**

A noite de 16 de maio de 1968 entrou para a história do rádio esportivo brasileiro. A decisão da Copa Libertadores da América entre Palmeiras e Estudiantes, disputada no Estádio Jorge Lier (La Plata), mobilizou uma cobertura radiofônica sem precedentes no país. Emissoras de norte a sul montaram esquemas especiais, com repórteres ao lado do gramado, cabines improvisadas e transmissões ao vivo que duraram horas, levando a emoção do título sul-americano a cada canto do Brasil.

**Contexto**

A época era marcada pelo predomínio do rádio como principal meio de comunicação de massa. A televisão ainda engatinhava no país – a primeira transmissão ao vivo de um jogo da Libertadores só ocorreria anos depois. Assim, a cobertura da final entre Palmeiras e Estudantes dependia quase que exclusivamente das ondas curtas e AM. A Rádio Nacional do Rio de Janeiro, a Bandeirantes de São Paulo e a Gaúcha de Porto Alegre lideraram a disputa pela audiência, cada uma com equipes de narradores, comentaristas e plantonistas.

O Palmeiras, então campeão brasileiro de 1967 (Taça Brasil), buscava seu primeiro título continental. Do outro lado, o Estudiantes comandado pelo técnico Osvaldo Zubeldía já havia eliminado equipes tradicionais como Racing e Nacional. A preparação do clube argentino foi acompanhada de perto pelos repórteres brasileiros, que transmitiam cada treino e coletiva. Nos dias que antecederam a partida, o rádio brasileiro dedicou editoriais inteiros à tática do time adversário, à escalação do Verdão e às condições do campo de La Plata.

A tecnologia da época exigia improvisação. Como não havia satélite, as emissoras usavam linhas telefônicas de longa distância – muitas vezes instáveis – para retransmitir o sinal da Argentina para o Brasil. Em algumas cidades do interior, os ouvintes se reuniam em praças públicas em torno de um rádio para acompanhar a jornada. A expectativa era tamanha que as fábricas anteciparam o fim do expediente naquela quinta-feira, e os bares lotaram com a promessa de uma vitória alviverde.

**Análise**

A cobertura da decisão de 1968 consolidou o modelo de transmissão esportiva que dominaria o Brasil por décadas. Pela primeira vez, uma final de Libertadores recebeu atenção total do rádio brasileiro, com flashes ao vivo, entrevistas de intervalo e a figura do “repórter de campo” como parte essencial da narrativa. Os narradores – como Pedro Luís, da Bandeirantes, e Ary Barroso, da Rádio Nacional – se tornaram verdadeiros âncoras emocionais para milhões de ouvintes. A linguagem radiofônica, carregada de expressões regionalistas e gritos de gol, ganhou contornos épicos.

Além do entretenimento, o rádio cumpriu um papel de integração nacional. Muitos brasileiros que viviam em áreas rurais sem acesso a jornais ou TV puderam acompanhar, em tempo real, a tentativa do Palmeiras de se sagrar campeão da América. A derrota por 2 a 1 (e o título para o Estudantes) não diminuiu a magnitude da transmissão. Pelo contrário: a tristeza compartilhada por milhões de vozes uniu o país em torno de uma experiência comum, algo que só o rádio proporcionava naquele momento.

A cobertura também influenciou gerações de jornalistas esportivos. Profissionais que iniciaram a carreira nos anos 1960, como Osmar Santos e José Silvério, aprenderam com o modelo de cobertura ao vivo que se consolidou naquela final. O uso de “puxadas” – flashes ao vivo de vários pontos do estádio – e a integração entre estúdio e repórter em campo foram aperfeiçoados nesse jogo. Mesmo com o posterior avanço da TV, o rádio jamais abandonou o esquema de transmissão que nasceu ali.

**Fontes**

A reconstituição da cobertura radiofônica baseia-se em acervos históricos das emissoras mencionadas, registros da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), reportagens do jornal O Estado de S. Paulo de maio de 1968 e depoimentos de radialistas disponíveis em arquivos da Biblioteca Nacional. A partida em si é amplamente documentada por estatísticas oficiais da Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL) e por relatos de historiadores do esporte como Celso Unzelte.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.