**Lead**
O ex-procurador de Justiça Jarbas Soares negou, em entrevista publicada na manhã desta quinta-feira, qualquer participação em um aporte financeiro destinado ao instituto presidido pelo dirigente Mendonça, no âmbito de uma discussão que, fora das quadras políticas, alcançou o ambiente esportivo nacional. A declaração foi dada um dia depois de circular nos bastidores a informação de que o nome de Jarbas teria aparecido em documentos relacionados à liberação de recursos para a entidade, supostamente com impacto em projetos sociais ligados ao esporte de base. A negativa, porém, não encerrou o assunto: dirigentes, atletas e especialistas em governança esportiva voltaram a cobrar mais transparência na origem e no destino dos recursos que movimentam institutos e associações no Brasil.
Segundo Jarbas Soares, o conteúdo que circula nas redes sociais e em grupos de mensagens é "uma distorção completa da realidade". Ele afirmou que nunca participou de reuniões, tratativas ou atos administrativos relacionados ao repasse de verbas para o instituto de Mendonça e que desconhece os documentos citados. "Nunca tratei desse assunto com ninguém. Não tenho qualquer vínculo com a entidade e jamais atuei para favorecer ou viabilizar recursos para esse fim", disse o ex-procurador, que também é conhecido no cenário esportivo por suas posições em defesa da profissionalização da gestão de clubes e federações.
**Contexto**
A controvérsia ganhou força após a publicação de uma lista supostamente extraída de um relatório interno de uma federação estadual, na qual o nome de Jarbas Soares apareceria ao lado de valores destinados a um programa de incentivo ao esporte. O instituto comandado por Mendonça atua há anos em projetos de formação de atletas em modalidades como vôlei, basquete e atletismo, com núcleos em comunidades de baixa renda. A entidade, no entanto, nunca divulgou de forma detalhada a composição de seu orçamento, o que alimenta questionamentos recorrentes sobre a origem dos recursos.
A relação entre figuras públicas e institutos esportivos não é novidade no país. Diversos estados e municípios mantêm convênios com organizações da sociedade civil para execução de projetos esportivos, especialmente em regiões onde a infraestrutura pública é escassa. Nesses convênios, é comum que nomes de autoridades apareçam em documentos de prestação de contas, ainda que sem participação direta nas decisões. O problema, segundo especialistas, é que a ausência de mecanismos claros de fiscalização permite interpretações dúbias e abre espaço para versões contraditórias como a que agora envolve Jarbas Soares e Mendonça.
O instituto de Mendonça, por sua vez, divulgou uma nota curta em suas redes sociais afirmando que "todas as suas atividades são legais e pautadas pela transparência" e que "não comenta documentos de origem não verificada". A nota não esclarece se houve ou não o aporte mencionado, nem qual seria o papel de Jarbas Soares caso o repasse tivesse ocorrido. O silêncio da entidade sobre os detalhes financeiros é apontado por críticos como mais um sintoma da falta de padrões consolidados de governança no esporte brasileiro.
**Análise**
O caso expõe uma fragilidade estrutural que vai além da disputa política local: o financiamento de institutos esportivos no Brasil ainda é uma zona cinzenta. Diferentemente de clubes profissionais, que passaram a adotar balanços auditados e comitês de transparência após pressões da torcida e de patrocinadores, muitas organizações de base continuam funcionando com estruturas enxutas e prestação de contas seletiva. Isso cria um ambiente fértil para boatos, desinformação e suspeitas que, mesmo infundadas, acabam manchando a reputação de pessoas e instituições.
A negativa veemente de Jarbas Soares é um passo importante para esclarecer a posição dele no episódio, mas dificilmente encerrará o debate. Em um ano em que o esporte nacional volta a ser palco de disputas por patrocínios bilionários e por recursos públicos via leis de incentivo, a exigência por auditoria independente e por acesso público a contratos e convênios tende a crescer. Se o caso servir para acelerar essa pauta, pode ter um efeito colateral positivo, mesmo que o episódio em si não passe de um mal-entendido.
Também é relevante observar o comportamento das entidades envolvidas. A postura de não entrar em detalhes, adotada pelo instituto de Mendonça, é compreensível do ponto de vista jurídico, mas insuficiente do ponto de vista comunicacional. Em um ambiente de hiperexposição nas redes sociais, a omissão é frequentemente lida como confirmação. Para reconstruir a confiança, não basta dizer que tudo é legal — é preciso mostrar, com documentos e números claros, de onde vieram os recursos e para onde foram os gastos.
**Fontes**
As informações desta reportagem foram obtidas a partir da entrevista concedida por Jarbas Soares à imprensa na manhã desta quinta-feira, da nota oficial publicada pelo instituto presidido por Mendonça em suas redes sociais e de informações publicamente disponíveis sobre convênios e projetos esportivos financiados por órgãos públicos e entidades privadas. Todas as declarações citadas foram reproduzidas conforme divulgadas pelos próprios envolvidos.
Por Renan Filho · 2026-10-09