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Política

Janja ganha protagonismo na campanha, dirige a cena em atos e contraria aliados de Lula

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-29

Primeira-dama assume papel central na reta final da campanha pela reeleição, com decisões estratégicas que geram atritos com o núcleo político do presidente.

**Lead**

A primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, tornou-se a principal voz na coordenação da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos atos de rua das últimas semanas. Em eventos realizados em São Paulo, Recife e Belo Horizonte, Janja assumiu a direção do palco, definiu o tempo das falas, orientou a disposição das bandeiras e chegou a interromper aliados para ajustar o discurso — comportamento que tem contrariado integrantes da cúpula petista, habituados a ter a palavra final em agendas públicas. A movimentação marca uma mudança no desenho tradicional de campanha presidencial no Brasil, na qual a figura do candidato costuma centralizar o comando.

A participação de Janja não se limita à presença protocolar ao lado do marido. Relatos de participantes dos eventos indicam que ela chega antes das comitivas, vistoria os locais, testa o som e, em alguns momentos, redefine o roteiro da programação. Em um ato recente na capital paulista, Janja solicitou a redução do tempo de um discurso de um ministro para que Lula pudesse encerrar o evento mais cedo, gerando mal-estar entre assessores. Em outra ocasião, em Recife, ela orientou a equipe de comunicação para dar mais ênfase a temas de políticas para mulheres e de combate à fome, em detrimento de pautas econômicas que aliados consideravam prioritárias para o eleitorado nordestino.

**Contexto**

Essa atuação mais incisiva não é novidade na trajetória de Janja na vida pública. Desde a campanha de 2022, ela atuou nos bastidores, especialmente na comunicação digital e em agendas com influenciadores. No governo, passou a ter participação em eventos culturais e sociais, mas sem atribuição formal de cargo. Agora, a proximidade da eleição e o cenário de disputa acirrada a levaram a ampliar sua presença pública, com perfil de articuladora político-comunicacional.

A mudança, porém, não é consensual internamente. Nos últimos meses, algumas lideranças do PT, de forma reservada, criticaram o nível de interferência de Janja em temas de estratégia. O principal ponto de tensão teria ocorrido quando ela teria sugerido que a campanha não priorizasse a reforma tributária nos programas de rádio e TV, em nome de um discurso mais voltado a conquistas sociais — posição que confrontava diretamente o argumento de ministros da área econômica, que defendiam a importância de mostrar a agenda reformista para conquistar o eleitorado moderado.

Apesar das divergências, a avaliação de parte expressiva do núcleo de comunicação é de que Janja representa um ativo importante na campanha. O perfil de primeira-dama ativa, com presença constante em redes sociais e conectada a pautas de direitos das mulheres, tem potencial de aproximar segmentos que Lula, pela trajetória histórica de política tradicional, encontra maior dificuldade de alcançar.

**Análise**

A crescente centralização de Janja na condução dos atos de campanha reflete mais do que um traço de personalidade. Ela tem funcionado como contraponto a uma ala do partido que insiste em repetir fórmulas de campanhas anteriores. Em um momento em que a eficiência da comunicação instantânea e a presença digital definem o ritmo da disputa, a atuação de Janja pode ser interpretada como uma tentativa de modernizar a comunicação do candidato, tornando-a mais ágil e menos hierarquizada.

Esse protagonismo, porém, envolve riscos claros. Ao centralizar decisões e, por vezes, atropelar a hierarquia tradicional do partido, ela pode gerar rusgas capazes de contaminar o ambiente político da campanha nos últimos dias. Históricos de eleições passadas mostram que interferências familiares no comando de campanhas presidenciais, quando não amplamente aceitas, geram crises públicas e desgaste para o próprio candidato. O caso mais recente envolveu o processo que culminou na inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro — situação em que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro atuou como peça-chave de articulação, mas sem assumir faixa de comando formal.

A opção de Lula em dar espaço crescente à esposa também dialoga com pesquisas qualitativas de opinião captadas por institutos de pesquisa, que indicam que segmentos do eleitorado consideram Janja uma figura "autêntica" e "acessível". Embora não haja dados numéricos consolidados e públicos que permitam mensurar o impacto direto dessa percepção, os relatos de bastidores indicam que a estratégia é deliberada.

Do ponto de vista de tendência, é razoável apontar que, independentemente do resultado da eleição, o papel da primeira-dama na política brasileira saiu de um patamar meramente cerimonial para um lugar de influência decisória — algo que deve ser estudado e debatido nas próximas análises políticas.

**Fontes**

As informações deste artigo foram baseadas em relatos de participantes de atos de campanha, em notícias veiculadas por veículos de comunicação como Folha de S.Paulo, O Globo e CNN Brasil, e em notas oficiais da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, disponibilizadas à imprensa durante o período de eleição. Não foram reproduzidas declarações diretas de fontes primárias ou trechos de discursos que não estejam em domínio público e amplamente divulgados pela imprensa nacional.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.