**Lead**
Há exatamente um ano, uma das maiores operações policiais da história do Rio de Janeiro mobilizava mais de 2 mil agentes nos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte da capital fluminense, com saldo de 122 mortos. Doze meses depois, 33 alvos considerados de alta periculosidade continuam foragidos, segundo o balanço mais recente das forças de segurança do estado. A operação, oficialmente batizada de Ordo, foi apresentada como resposta a uma série de ataques a ônibus e viaturas ocorridos na semana anterior, que deixaram a cidade em estado de alerta.
**Contexto**
A megaoperação foi deflagrada em outubro do ano passado, após uma escalada de violência que culminou com a queima de veículos em diferentes pontos da capital. O governo estadual classificou a ação como necessária para retomar territórios dominados pelo crime organizado, especialmente facções com atuação no tráfico de drogas e em roubos de cargas.
Os números oficiais apontam que, durante os dias de confronto, 122 pessoas morreram, sendo a maior parte classificada como suspeitos em confronto com agentes do Estado. As circunstâncias das mortes, no entanto, geraram questionamentos de entidades de direitos humanos e do Ministério Público, que abriu procedimentos para investigar possíveis excessos. A Polícia Civil e a Polícia Militar afirmaram que todas as ocorrências foram registradas e que as perícias seguiram o protocolo padrão.
Passado um ano, as forças de segurança mantêm a versão de que a operação desarticulou a cúpula do tráfico na região e reduziu os índices de roubo de veículos e de cargas nas áreas atendidas pelas Unidades de Polícia Pacificadora. Por outro lado, moradores e pesquisadores ouvidos ao longo dos últimos meses relatam que o clima de medo permanece, com toques de recolher informais e controle armado das comunidades por grupos que disputam os pontos de venda de drogas.
Os 33 foragidos integram listas de procurados por homicídio, tráfico associado a organização criminosa e participação em ataques a agentes públicos. As autoridades divulgaram cartazes com fotos e nomes, além de oferecer recompensa para informações que levem à prisão. A Secretaria de Segurança Pública afirma que as buscas continuam de forma integrada entre as polícias Civil, Militar, Federal e o sistema de inteligência do estado.
**Analise**
O aniversário da operação ocorre em um contexto de reestruturação do modelo de segurança pública fluminense. Especialistas apontam que ações de grande impacto, com elevado número de mortos, tendem a produzir efeito imediato sobre a visibilidade do problema, mas não resolvem as causas estruturais da violência. O fato de 33 alvos seguirem foragidos indica que a capacidade de reposição das lideranças criminosas é alta e que o território segue sendo disputado.
Há também um componente simbólico relevante. Para parcela da população, a operação foi recebida como resposta legítima à onda de ataques; para outra, os 122 mortos reforçam a crítica ao uso de força letal como política de segurança. A repercussão internacional, inclusive, colocou o Rio de Janeiro novamente no centro do debate sobre letalidade policial em grandes centros urbanos.
O cenário atual mostra que, sem investimento contínuo em inteligência, presença estatal e políticas sociais, operações pontuais, por mais robustas que sejam, dificilmente impedem a reorganização do crime. A permanência de dezenas de foragidos também compromete, na prática, a narrativa de que a operação teria sido um golpe definitivo nas organizações que atuam na região. Para especialistas, a solução exige articulação entre os três níveis de governo, com foco em prevenção, urbanização de comunidades e combate à lavagem de dinheiro que financia o armamento das facções.
**Fontes**
As informações deste artigo têm como base balanços oficiais divulgados pela Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, notas da Polícia Civil e da Polícia Militar, boletins do Ministério Público estadual sobre o acompanhamento das investigações, além de reportagens dos principais veículos de imprensa brasileiros e internacionais que cobriram a operação e seus desdobramentos.
Por Renan Filho · 2026-10-28