**Lead**
A Intel divulgou nesta quinta-feira (29) seus resultados financeiros do terceiro trimestre de 2026, reportando lucro líquido de US$ 3,3 bilhões, uma queda de 18% em relação ao mesmo período do ano anterior. A receita total da companhia atingiu US$ 14,2 bilhões, ligeiramente acima das expectativas de Wall Street, mas o mercado reagiu com cautela diante das margens pressionadas e da desaceleração na demanda por chips para data centers. As ações da empresa caíram cerca de 4% no after-hours, refletindo a preocupação dos investidores com a sustentabilidade do crescimento em um setor cada vez mais competitivo.
**Contexto**
A Intel, que já foi a líder indiscutível no mercado de semicondutores, enfrenta um cenário desafiador desde o início da década. A concorrência acirrada da AMD no segmento de processadores para servidores e a ascensão da Nvidia no mercado de chips para inteligência artificial (IA) têm corroído a participação de mercado da companhia. No terceiro trimestre, a divisão de data centers, que historicamente era a principal fonte de receita da Intel, registrou uma queda de 12% nas vendas em comparação anual, totalizando US$ 5,8 bilhões. Esse declínio foi parcialmente compensado pelo crescimento de 8% na unidade de PCs, que gerou US$ 7,1 bilhões, impulsionada pela renovação de parques de máquinas corporativas.
A empresa também tem lidado com custos crescentes de produção, especialmente em suas fábricas mais avançadas, que utilizam a tecnologia de processo de 18A. A Intel investiu pesadamente em novas instalações nos Estados Unidos e na Europa, buscando recuperar a liderança tecnológica e atender às demandas de segurança nacional por produção local de chips. No entanto, esses investimentos têm pressionado as margens operacionais, que caíram para 22,4% no trimestre, ante 25,1% no mesmo período de 2025. O CEO da Intel, Pat Gelsinger, em teleconferência com analistas, destacou que a empresa está no caminho certo para atingir a meta de margem bruta de 60% até 2030, mas reconheceu que o curto prazo continua difícil.
**Análise**
A queda de 18% no lucro líquido, apesar de uma receita estável, sinaliza que a Intel ainda não conseguiu converter seus investimentos em inovação em rentabilidade imediata. O mercado de semicondutores está passando por uma transformação estrutural, com a demanda migrando rapidamente para chips especializados em IA, um segmento em que a Intel ainda é um player secundário. A Nvidia, por exemplo, viu suas receitas crescerem mais de 60% no mesmo período, impulsionada pela venda de GPUs para treinamento de modelos de linguagem. A Intel, por outro lado, ainda depende fortemente de seu portfólio tradicional de CPUs, que, embora essenciais, não oferecem o mesmo potencial de crescimento.
Outro ponto de atenção é a dívida líquida da empresa, que subiu para US$ 48 bilhões, um aumento de 15% em relação ao ano anterior. A Intel tem utilizado parte de seu caixa para financiar a construção de novas fábricas, incluindo a planta de Ohio, que deve começar a operar em 2027. Esse endividamento, embora administrável, limita a flexibilidade financeira da companhia em um cenário de juros elevados. Por outro lado, a empresa anunciou um programa de recompra de ações de US$ 10 bilhões, sinalizando confiança na recuperação de longo prazo. A reação do mercado, no entanto, foi mista, com alguns analistas apontando que a recompra poderia ser adiada para preservar caixa.
A Intel também enfrenta desafios geopolíticos, especialmente em relação às restrições de exportação para a China, que representam cerca de 25% de sua receita. As novas regras impostas pelo governo dos EUA, que limitam a venda de chips avançados para o país asiático, devem impactar as vendas da companhia nos próximos trimestres. A empresa já reduziu suas projeções de receita para o quarto trimestre, estimando uma faixa de US$ 13,8 bilhões a US$ 14,8 bilhões, abaixo do consenso de mercado de US$ 15,1 bilhões. Essa orientação conservadora reflete a incerteza regulatória e a fraca demanda sazonal.
**Fontes**
As informações foram obtidas a partir do comunicado oficial de resultados da Intel, disponível no site de relações com investidores da companhia, e da teleconferência com analistas realizada na manhã desta quinta-feira. Dados adicionais foram coletados de relatórios setoriais da Gartner e da IDC, que monitoram o mercado global de semicondutores. A análise de impacto regulatório baseia-se em comunicados do Departamento de Comércio dos EUA e em reportagens da Reuters e do The Wall Street Journal publicadas ao longo da semana.
Por Renan Filho · 2026-10-29