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O Brasil passou a contar com uma nova ferramenta na prevenção ao HIV: uma injeção semestral que, no mercado privado, pode custar até R$ 20.900 por aplicação. O medicamento, um anticorpo monoclonal de ação prolongada, foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e já está disponível em clínicas particulares. A expectativa é que a tecnologia represente um avanço significativo na adesão à profilaxia, mas o valor elevado acendeu alertas sobre desigualdade no acesso.
**Contexto**
A profilaxia pré-exposição (PrEP) oral, baseada em comprimidos diários de tenofovir e entricitabina, reduziu drasticamente as novas infecções por HIV no mundo desde sua introdução, há mais de uma década. No Brasil, o SUS oferece a PrEP oral gratuitamente desde 2017, com mais de 200 mil usuários cadastrados. No entanto, a adesão diária é um desafio: estudos mostram que boa parte dos usuários abandona o tratamento nos primeiros meses, seja por efeitos colaterais, seja por rotina inconsistente.
A versão injetável de longa duração surgiu como alternativa para contornar essa barreira. Ensaios clínicos conduzidos por organizações internacionais demonstraram que a aplicação a cada seis meses mantém níveis plasmáticos protetores do fármaco, com eficácia comparável ou até superior à PrEP oral. A Anvisa concedeu registro ao produto em 2024, após análise de dados de segurança e eficácia. Desde então, o fabricante iniciou a distribuição para o setor privado, com preço sugerido próximo ao patamar divulgado.
O custo de R$ 20.900 por aplicação faz do Brasil um dos países com maior valor para a tecnologia entre as nações onde ela está disponível. Especialistas apontam que o alto preço decorre de patentes vigentes, exclusividade de mercado e investimento em pesquisa e desenvolvimento. Laboratórios farmacêuticos argumentam que o valor reflete o custo de produção e a necessidade de recuperar investimentos, mas organizações da sociedade civil classificam o montante como proibitivo para a maior parte da população.
**Análise**
A chegada da injeção semestral ao Brasil coloca em xeque a promessa de equidade na prevenção. Enquanto a PrEP oral segue gratuita no SUS, a versão injetável pode se tornar um marcador de privilégio, acessível apenas a quem pode pagar. Isso ocorre em um momento em que o país registra cerca de 40 mil novos casos de HIV por ano, com concentração entre jovens, negros e populações vulnerabilizadas — exatamente os grupos que mais se beneficiariam de uma opção de longa duração.
A incorporação ao SUS não ocorreu até o momento, e não há prazo definido para negociação. O Ministério da Saúde já sinalizou que avalia a tecnologia, mas o impacto orçamentário é significativo: mesmo com desconto, o custo por pessoa tratada seria dezenas de vezes maior que o da PrEP oral. Estudos de custo-efetividade serão determinantes. Se a inclusão for aprovada, o Brasil poderia se tornar referência em prevenção de longo prazo, mas, se ficar restrita ao setor privado, a injeção semestral corre o risco de ampliar o fosso entre ricos e pobres no acesso à saúde.
Outro ponto é o potencial impacto na saúde pública global. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que países priorizem a prevenção combinada, que inclui preservativos, PrEP oral e, idealmente, opções injetáveis. O alto preço, no entanto, dificulta a adoção em larga escala, especialmente em nações de baixa e média renda, onde a epidemia de HIV é mais intensa. O Brasil, como país de renda média, pode servir de termômetro para as tensões entre inovação e acesso.
**Fontes** - Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — registro do medicamento. - Ministério da Saúde — dados sobre PrEP no SUS e perfil epidemiológico do HIV. - Organização Mundial da Saúde (OMS) — recomendações sobre prevenção combinada ao HIV. - Publicações científicas revisadas sobre eficácia de profilaxia injetável de longa duração.
Por Renan Filho · 2026-10-19