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Economia

Indústria trava investimentos e atinge pior nível desde 2020: o custo da incerteza eleitoral

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-21

A intenção de investir da indústria brasileira despencou para o menor patamar em seis anos, segundo pesquisa da CNI. O motivo? O risco regulatório e a indefinição política que paralisam o empresariado.

O sinal de alerta foi acionado. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou nesta sexta-feira, 19 de setembro, a Sondagem de Investimentos do terceiro trimestre de 2026, e o resultado é desanimador: o Indicador de Intenção de Investimento caiu para 42,7 pontos, o menor desde o segundo trimestre de 2020, quando a pandemia causava estragos na economia.

O número está bem abaixo da linha de 50 pontos, que separa a disposição de investir da retração. Em outras palavras, a maioria das empresas consultadas sinalizou que não pretende ampliar capacidade produtiva, modernizar maquinário ou contratar nos próximos meses. O recuo é de 5,3 pontos em relação ao trimestre anterior.

A CNI aponta como principal causa a “elevada incerteza política e regulatória” gerada pelo ambiente eleitoral. O Brasil se aproxima das eleições presidenciais de outubro, e o empresariado, calejado por anos de intervencionismo, prefere esperar para ver qual será o rumo da política econômica.

**Por que isso importa**

Investimento industrial é o motor do crescimento sustentável. Sem ele, não há aumento de produtividade, nem geração de empregos de qualidade. A estagnação dos investimentos significa que o PIB potencial do país continuará encolhendo, enquanto a concorrência internacional — especialmente de China e Estados Unidos — acelera.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a indústria de transformação já opera com 78% da capacidade instalada, muito abaixo do ideal. Sem novos aportes, a obsolescência do parque fabril se aprofunda, e o Brasil perde competitividade em setores como automotivo, químico e de bens de capital.

A pesquisa da CNI também revela que o principal entrave citado pelos empresários é a “incerteza quanto às regras tributárias e trabalhistas”. A reforma tributária, aprovada em 2023, ainda não foi totalmente regulamentada, e o governo atual insiste em medidas que aumentam o custo do capital, como a volta da tributação sobre lucros e dividendos.

**Análise FORTIS: o custo do estatismo disfarçado**

A queda na intenção de investir não é um acaso. É a consequência lógica de um modelo que prefere o Estado como protagonista, em vez de criar um ambiente previsível para o setor privado. O governo, ao mesmo tempo que anuncia programas de crédito subsidiado via BNDES, promove intervenções setoriais e ameaça com controles de preços.

Em publicação nas redes sociais, o economista José Roberto Mendonça de Barros, ex-secretário de Política Econômica, afirmou que “a incerteza eleitoral é apenas a cereja do bolo de um ambiente de negócios deteriorado por anos de má gestão macroeconômica”. Segundo ele, o empresário brasileiro aprendeu a desconfiar de promessas de campanha.

A ausência de um compromisso crível com a disciplina fiscal também pesa. O mercado de juros futuros já precifica uma Selic acima de 13% ao ano para 2027, o que encarece o custo de oportunidade de qualquer projeto de longo prazo. Investir em capacidade industrial, nesse cenário, é menos atrativo do que aplicar em títulos públicos.

**Contraponto: o discurso oficial**

Do lado do governo, a narrativa é de que a pesquisa reflete um momento de “cautela natural” e que os fundamentos da economia estão sólidos. Em entrevista à Rádio CBN, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que “a indústria brasileira está passando por um processo de reestruturação e que os investimentos virão com a consolidação fiscal e a queda da inflação”.

Haddad também destacou o programa Nova Indústria Brasil, que prevê R$ 300 bilhões em crédito até 2028. No entanto, economistas liberais apontam que esse tipo de política, baseada em subsídios e escolha de vencedores, historicamente gera distorções e não substitui a necessidade de reformas estruturais.

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), em nota oficial, classificou o resultado como “preocupante” e cobrou do Congresso a aprovação urgente da reforma administrativa e do novo marco regulatório do gás natural. “Sem previsibilidade, o empresário não sai da toca”, afirmou o presidente da entidade, Josué Gomes, em declaração à imprensa.

**1. A queda na intenção de investir é um fenômeno exclusivo do Brasil?** Não. A incerteza política afeta investimentos em qualquer país, mas o Brasil se destaca negativamente pela magnitude da deterioração. Enquanto economias emergentes como Índia e Vietnã atraem fluxos crescentes de capital produtivo, o Brasil patina devido à instabilidade regulatória e à carga tributária elevada. A pesquisa da CNI mostra que 68% das empresas consultadas consideram o ambiente de negócios “ruim” ou “péssimo”.

**2. O que poderia reverter esse cenário rapidamente?** A curto prazo, a sinalização de um governo comprometido com a disciplina fiscal, a simplificação tributária e a segurança jurídica. Medidas como a aprovação da autonomia do Banco Central, a redução de subsídios cruzados e a desburocratização de licenças ambientais podem restaurar a confiança. Mas, como alerta o economista Marcos Lisboa, em artigo publicado no jornal O Globo, “não há atalho: o Brasil precisa de reformas pró-mercado, não de pacotes de estímulo eleitoral”. A história mostra que nenhum programa de crédito compensa a falta de previsibilidade.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.