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A indústria brasileira reagiu com veemência à proposta de emenda constitucional (PEC) que pretende abolir a jornada de trabalho conhecida como 6×1 — seis dias consecutivos de trabalho seguidos de um dia de folga. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou uma projeção de que a medida provocaria um aumento médio de 6,2% nos preços ao consumidor, enquanto a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) classificou a iniciativa como uma “PEC Boca de Urna”, sugerindo caráter eleitoreiro e falta de diálogo com o setor produtivo. O embate ocorre em meio à tramitação da matéria no Congresso Nacional, com forte pressão de centrais sindicais e resistência de entidades patronais.
**Contexto**
A escala 6×1 é uma das mais comuns no mercado de trabalho brasileiro, especialmente nos setores de comércio, serviços e indústria de turnos. A PEC em discussão propõe a redução da jornada máxima semanal para 36 horas, distribuídas em quatro dias de trabalho (modelo 4×3), ou alternativas que eliminam a necessidade de seis dias consecutivos de labor. A proposta foi apresentada por parlamentares ligados a movimentos sindicais e conta com o apoio do governo federal, que a enquadra como uma pauta de modernização das relações trabalhistas e melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores.
A CNI, que representa 27 federações estaduais e mais de mil sindicatos patronais, realizou um estudo de impacto econômico antes da divulgação da projeção de 6,2% de alta nos preços. Segundo a entidade, o aumento decorreria da necessidade de contratar mais funcionários para cobrir as folgas adicionais, elevar custos com horas extras e reduzir a produtividade por trabalhador. O estudo também aponta que setores como logística, saúde e indústria de processo contínuo seriam os mais afetados, com risco de desabastecimento temporário e repasse de custos ao consumidor final.
A Fiesp, por sua vez, emitiu uma nota técnica na qual critica a tramitação acelerada da PEC. A entidade paulista argumenta que a proposta não foi precedida de estudos aprofundados sobre os impactos setoriais e que o governo estaria utilizando o tema como “moeda de troca política” em um ano eleitoral. O termo “PEC Boca de Urna” foi cunhado pela própria Fiesp para designar medidas que, na visão da entidade, visam angariar votos sem considerar as consequências econômicas reais. A federação também alerta que a aprovação da PEC poderia levar a um aumento da informalidade, já que pequenas empresas teriam dificuldade em arcar com os novos custos trabalhistas.
**Análise**
O embate em torno do fim da jornada 6×1 transcende a esfera trabalhista e ganha contornos de política macroeconômica com repercussão internacional. O Brasil, como uma das maiores economias do mundo, atrai investimentos estrangeiros que dependem de previsibilidade regulatória e custos de mão de obra competitivos. Uma mudança abrupta na jornada máxima, sem período de adaptação ou compensações setoriais, pode gerar incertezas que afetam decisões de investimento, especialmente em indústrias intensivas em mão de obra, como a têxtil, calçadista e de montagem eletrônica.
Além disso, a projeção de alta de 6,2% nos preços feita pela CNI, se confirmada, teria impacto direto sobre a inflação já pressionada no país. O Banco Central, que monitora a trajetória dos preços para definir a taxa básica de juros, poderia ser forçado a manter uma política monetária mais restritiva, encarecendo o crédito e desacelerando a economia. Esse cenário preocupa analistas internacionais que acompanham o Brasil como destino de fluxos de capital, pois uma inflação persistente combinada com juros altos reduz o apetite por ativos brasileiros.
Do ponto de vista político, a classificação da Fiesp como “PEC Boca de Urna” reflete a polarização em torno de pautas trabalhistas no Brasil. O governo, que busca reverter a queda de popularidade, aposta em medidas de apelo popular, enquanto a oposição e o setor produtivo denunciam o que consideram populismo econômico. A tramitação da PEC no Congresso será um teste para a capacidade de articulação do Executivo e para a força do lobby industrial. Caso aprovada, o Brasil se juntaria a um grupo seleto de países que adotaram jornadas reduzidas, como França (35 horas semanais) e alguns experimentos na Islândia e Nova Zelândia, mas com diferenças substanciais de contexto econômico e produtivo.
**Fontes**
- Confederação Nacional da Indústria (CNI) – estudo de impacto econômico e projeção de alta de 6,2% nos preços. - Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) – nota técnica e declarações sobre a “PEC Boca de Urna”. - Proposta de Emenda à Constituição em tramitação no Congresso Nacional brasileiro. - Dados do Banco Central do Brasil sobre inflação e taxa de juros (referências gerais).
Por Renan Filho · 2026-10-15