FORTIS
← FORTIS
Politica

IA no jurídico: sua empresa está economizando dinheiro ou apenas produzindo mais?

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-29

A adoção de inteligência artificial nos escritórios de advocacia cresceu no Brasil, mas o discurso de redução de custos contrasta com a realidade de muitos setores jurídicos, que seguem com equipes enxutas e alta demanda por produtividade.

**Lead**

A promessa de que a inteligência artificial revolucionaria o setor jurídico — reduzindo custos, enxugando prazos e substituindo tarefas repetitivas — chega com força aos departamentos jurídicos brasileiros. No entanto, a pergunta que emerge nos bastidores de escritórios e áreas jurídicas de grandes empresas é incômoda: a IA está realmente economizando dinheiro ou apenas produzindo mais trabalho no mesmo tempo? A discussão, que atravessa o Judiciário, o Legislativo e o mercado, ganhou contornos práticos em 2025, quando tribunais e advogados passaram a lidar com volume recorde de processos e com a pressão por eficiência.

**Contexto**

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) vem estimulando o uso de ferramentas de inteligência artificial no Poder Judiciário desde a criação do programa Justiça 4.0, em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Tribunais como o Tribunal de Justiça de São Paulo e o Superior Tribunal de Justiça adotaram sistemas que auxiliam na triagem de processos, na elaboração de minutas de decisões e na identificação de padrões jurisprudenciais. O movimento é real e continua em expansão: há um esforço coordenado para digitalizar integralmente os processos e usar algoritmos para classificar litígios de massa.

No setor privado, a adoção da IA jurídica também é crescente. Ferramentas de revisão contratual, due diligence automatizada, pesquisa de jurisprudência e análise preditiva de risco passaram a integrar a rotina de grandes bancas e departamentos internos. Startups jurídicas brasileiras, conhecidas como legaltechs, desenvolvem soluções para automatizar a triagem de documentos e gerar relatórios preliminares. A promessa de redução de custos é central no discurso de venda dessas tecnologias.

Mas a realidade operacional frequentemente contraria o discurso comercial. Em vez de reduzir a equipe ou o tempo gasto por tarefa, a IA é incorporada como mais uma camada de trabalho: os advogados passam a revisar o que a máquina produziu, corrigir inconsistências, validar fontes e assumir responsabilidade ética por decisões que afetam direitos de cidadãos. O resultado, em muitos casos, é um aumento de produtividade medido em páginas de documentos produzidos, mas não necessariamente em economia mensurável no orçamento.

A lógica é conhecida de outras áreas: quando uma tecnologia barateia e acelera um processo, a demanda tende a aumentar até consumir novamente o tempo liberado. No Direito, a digitalização e a IA permitiram que escritórios aceitassem mais clientes, que departamentos jurídicos processassem mais contratos e que o Judiciário desse conta de um acervo maior. A eficiência, nesse sentido, é absorvida pelo aumento de volume — não pela diminuição das horas trabalhadas.

**Análise**

O impacto econômico da IA no jurídico depende de métricas que ainda não são uniformemente adotadas. Medir apenas a velocidade de produção de peças é insuficiente. É preciso avaliar o custo por resultado, a qualidade das decisões, a taxa de retrabalho e o tempo efetivamente economizado pelos profissionais seniores. Um relatório gerado por IA que exige horas de revisão de um sócio pode custar mais caro do que a produção manual feita por um advogado pleno, especialmente quando o erro sistêmico gera passivo futuro.

Há também uma dimensão política e regulatória. O uso de IA no setor jurídico está na agenda do Congresso Nacional. Discute-se a necessidade de regras específicas para algoritmos usados em decisões judiciais e em documentos que fundamentam direitos. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) tem se manifestado sobre a responsabilidade profissional: o advogado que utiliza ferramentas de IA permanece responsável ética e civilmente pelo conteúdo apresentado em juízo. A ausência de regras claras pode levar a um cenário de produtividade sem accountability.

A tendência para os próximos anos é de sofisticação do debate. Empresas que enxergam a IA apenas como uma máquina de reduzir custos tendem a cometer erros graves, como confiar em análises automatizadas sem supervisão adequada. Já as organizações que tratam a IA como um ampliador de capacidade crítica — liberando advogados para tarefas de maior valor agregado — têm mais chances de obter ganhos reais. A diferença não está na ferramenta, mas na estratégia de implementação, na gestão do conhecimento e na cultura jurídica da instituição.

A pergunta sobre economia ou produção é, portanto, sintoma de um desafio maior: o setor jurídico brasileiro está diante de uma transformação que exige investimento em capacitação, auditoria de algoritmos e revisão dos modelos de cobrança por hora. Enquanto isso não ocorre, a IA continuará produzindo mais — sem necessariamente custar menos.

**Fontes**

A notícia é baseada em informações públicas disponíveis sobre o programa Justiça 4.0 do CNJ em parceria com o PNUD, em pronunciamentos institucionais da OAB sobre o uso de IA na advocacia e em relatos do mercado jurídico brasileiro sobre a adoção de legaltechs. Não há dados numéricos inéditos e não são atribuídas declarações a pessoas físicas específicas.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.