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Hugo Motta defende neutralidade como chave para centrão compor próximo governo: “Sem radicalismo, governamos com qualquer um”

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-24

Presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) afirmou que a neutralidade política é o principal ativo do centrão para negociar espaço no próximo governo, seja ele de direita, centro ou esquerda. Declaração expõe a lógica do pragmatismo que domina o Congresso e levanta dúvidas sobre a governabilidade futura.

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), declarou nesta quarta-feira (24) que a neutralidade política do centrão é o fator que permite ao bloco compor o próximo governo federal, independentemente de quem vença as eleições de 2026. Em entrevista ao programa “Poder em Foco”, do portal Poder360, Motta afirmou que o grupo não tem “amarras ideológicas” e que isso é uma vantagem competitiva em um cenário de fragmentação partidária.

“O centrão não é de esquerda nem de direita. Nós somos pragmáticos. Essa neutralidade dá condições de compor o próximo governo, seja ele qual for. Não temos radicalismo, e isso é um ativo para o Brasil”, disse o parlamentar, conforme transcrição divulgada pela assessoria. A declaração ocorre em meio à articulação dos partidos do bloco — PP, Republicanos, União Brasil, PSD e MDB — para garantir cargos e influência na próxima gestão.

O contexto político reforça a tese de Motta. Com um Congresso fragmentado em mais de 20 partidos com representação na Câmara, qualquer presidente eleito precisará de uma base ampla para aprovar reformas e evitar pautas-bomba. O centrão, que hoje controla cerca de 250 dos 513 deputados, oferece essa base — mas cobra um preço: participação no governo e liberdade para manter suas próprias agendas regionais e setoriais.

**Por que isso importa**

A fala de Hugo Motta expõe a fragilidade do modelo de governabilidade brasileiro. Em vez de coalizões programáticas baseadas em projetos de país, o que se vê é um mercado de apoio político: votos em troca de ministérios, emendas e cargos. O centrão, ao se declarar neutro, sinaliza que não está interessado em ideologia, mas em resultados práticos para suas bases eleitorais — o que, na prática, significa acesso ao Orçamento.

Para um governo liberal-conservador, essa dinâmica é um desafio. Se um presidente eleito com bandeiras de Estado mínimo, reforma tributária e corte de gastos tentar implementar a agenda, esbarrará no centrão, que historicamente defende o aumento de despesas por meio de emendas parlamentares e programas sociais clientelistas. O exemplo mais recente é o governo Lula, que, mesmo de esquerda, teve de ceder ministérios ao centrão para aprovar pautas econômicas, como o arcabouço fiscal.

**Análise FORTIS**

A neutralidade do centrão, na prática, é a negação da política como disputa de ideias. É a transformação do Estado em balcão de negócios. O liberal-conservadorismo defende que o governo deve ser limitado, mas também previsível e baseado em regras claras. Um bloco que apoia qualquer governo, desde que receba o que pede, não é um parceiro confiável para reformas estruturais — é um obstáculo.

Dados do Tesouro Nacional mostram que as emendas parlamentares — principal moeda de troca do centrão — saltaram de R$ 16 bilhões em 2020 para R$ 53 bilhões previstos em 2026, um aumento real de 230% em seis anos. Esse dinheiro, em grande parte, é usado em obras superfaturadas, contratações fantasmas e distribuição de benefícios sem contrapartida de produtividade. O centrão não é neutro: é um bloco que defende o aumento do gasto público, o que contraria frontalmente a agenda de Estado mínimo.

Além disso, a neutralidade declarada por Motta ignora que o centrão foi base do governo Bolsonaro (2019-2022) e hoje é base do governo Lula. Se o grupo é indiferente a quem está no poder, então não há compromisso com nenhum projeto de país — apenas com a própria sobrevivência política. Para o eleitor liberal-conservador, isso é um alerta: votar em candidatos que dependem do centrão significa aceitar que as reformas serão limitadas pelo pragmatismo fisiológico.

**Contraponto**

Defensores do centrão argumentam que o pragmatismo é a única forma de governar um país com 27 partidos e um presidencialismo de coalizão. Sem a negociação constante, o Brasil entraria em paralisia institucional, como ocorreu em 2015-2016, quando a crise política travou a economia. Para eles, a neutralidade não é falta de caráter, mas realismo político.

Há também quem veja no centrão um freio a radicalismos. Se um presidente de extrema direita ou extrema esquerda tentar impor uma agenda autoritária, o bloco pode barrar — como fez ao impedir a reforma administrativa de Bolsonaro em 2020 e ao segurar pautas de costumes de Lula em 2023. Nessa leitura, a neutralidade é uma garantia de moderação.

O problema é que a moderação, no Brasil, tem sido sinônimo de imobilismo. O centrão não barra apenas radicalismos; barra também reformas necessárias, como a simplificação tributária, a privatização de estatais deficitárias e a redução do tamanho do Estado. O resultado é um país que gasta mal, tributa demais e entrega pouco — exatamente o oposto do que o liberal-conservadorismo defende.

**1. O centrão realmente pode compor qualquer governo?** Sim, e já fez isso na prática. O bloco apoiou Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Dilma Rousseff (PT), Michel Temer (MDB), Jair Bolsonaro (PL) e novamente Lula. A condição é sempre a mesma: acesso a cargos e recursos. Não há restrição ideológica, apenas negociação de interesses. A declaração de Hugo Motta apenas confirma o que já é fato consumado na política brasileira.

**2. Isso é bom ou ruim para o liberal-conservadorismo?** Depende da perspectiva. No curto prazo, pode ajudar a aprovar pautas pontuais, como a reforma tributária ou a autonomia do Banco Central, se o centrão for cooptado. No longo prazo, porém, o bloco é um entrave à redução do Estado, pois vive do Orçamento público. Para quem defende Estado mínimo, o centrão é um adversário estrutural, não um aliado. A neutralidade que Motta celebra é, na verdade, a perpetuação do modelo de gasto público ineficiente que o FORTIS NEWS critica.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.