**Lead**
Lideranças governistas articulam nos bastidores do Congresso Nacional uma manobra para suprimir o intervalo regimental entre as sessões deliberativas e colocar em votação, ainda antes do segundo turno das eleições presidenciais, o projeto de lei que extingue a escala de trabalho 6x1 (seis dias de trabalho por um de descanso). A iniciativa, confirmada por fontes do Palácio do Planalto e de lideranças partidárias, busca capitalizar politicamente sobre uma pauta de forte apelo popular e tentar influenciar o eleitorado que irá às urnas no final de outubro.
**Contexto**
A escala 6x1 é uma das modalidades de jornada mais comuns no Brasil, especialmente nos setores de comércio, serviços e indústria. O projeto em tramitação propõe sua substituição por modelos mais flexíveis, como a jornada 5x2 (cinco dias de trabalho por dois de descanso) ou a semana de quatro dias, sem redução salarial. A proposta já passou por comissões temáticas e aguarda votação no plenário da Câmara dos Deputados. O calendário legislativo, no entanto, está apertado: as sessões ordinárias se encerram em meados de dezembro, e o recesso parlamentar começa em janeiro. Com a proximidade do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 26 de outubro, a base governista avalia que aprovar a medida antes da votação pode render dividendos eleitorais.
O segundo turno opõe o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, e o ex-presidente Jair Bolsonaro, que lidera a oposição. Pesquisas de intenção de voto indicam uma disputa acirrada, com vantagem numérica dentro da margem de erro para Lula. A aprovação do fim da 6x1 é vista por estrategistas do governo como uma forma de mobilizar a base sindical e trabalhista, tradicionalmente aliada ao PT, e também de atrair eleitores indecisos que priorizam direitos trabalhistas.
A manobra para pular o intervalo entre sessões não é inédita. O regimento interno da Câmara prevê um intervalo mínimo de 24 horas entre a conclusão de uma sessão e o início de outra, salvo em casos de urgência urgentíssima ou mediante aprovação de requerimento de quebra de interstício. Para isso, é necessário o apoio de, no mínimo, 257 deputados. Governistas já iniciaram conversas com líderes de partidos do centrão e da oposição moderada para garantir os votos necessários. A expectativa é que o requerimento seja apresentado na próxima semana, assim que o texto final do projeto for definido.
**Análise**
A aprovação do fim da 6x1 antes do segundo turno teria impacto imediato na campanha eleitoral. Para o governo, seria uma vitória legislativa concreta, capaz de demonstrar capacidade de entrega e sintonia com as demandas populares. O tema tem forte ressonância nas redes sociais e entre trabalhadores informais e formais, muitos dos quais enfrentam jornadas exaustivas. A oposição, por sua vez, critica a medida como eleitoreira e aponta riscos para a produtividade e a competitividade das empresas, especialmente pequenos negócios. Lideranças empresariais já sinalizaram que vão recorrer ao Judiciário caso a aprovação ocorra sem amplo debate.
Do ponto de vista político, a manobra de pular o intervalo pode gerar desgaste institucional. Parlamentares de oposição já ameaçam obstruir a votação e denunciar a quebra de regras regimentais. No entanto, a base governista aposta que o apelo popular da pauta e a pressão do calendário eleitoral serão suficientes para superar as resistências. Caso aprovado, o projeto ainda precisará passar pelo Senado, onde o governo também tem maioria, mas com menos folga. A tramitação acelerada pode encontrar obstáculos na Casa revisora, especialmente se houver mudanças substanciais no texto.
O impacto social da eventual extinção da escala 6x1 é objeto de debate entre especialistas. Defensores apontam melhora na qualidade de vida, redução de acidentes de trabalho e aumento da produtividade. Críticos alertam para o aumento de custos operacionais e a possível informalização de postos de trabalho. O governo, no entanto, tem se apoiado em estudos do Dieese e do IBGE que mostram tendência de adoção de jornadas reduzidas em economias desenvolvidas, sem perda de competitividade. A discussão, portanto, transcende o curto prazo eleitoral e se insere em um movimento global de repensar a organização do trabalho.
**Fontes**
As informações foram obtidas junto a lideranças do governo no Congresso Nacional, assessores do Palácio do Planalto e analistas políticos que acompanham a tramitação da proposta. Dados sobre o calendário eleitoral e o regimento interno da Câmara dos Deputados são de domínio público. Estudos citados são do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), disponíveis em seus respectivos portais.
Por Renan Filho · 2026-10-02