Em mais um capítulo da crônica do uso de helicópteros por autoridades brasileiras, um painel realizado nesta quinta-feira em São Paulo expôs detalhes que ligam o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), ao ex-sócio do grupo Master, que teria disponibilizado uma aeronave para viagem conjunta com o ex-governador Jaques Wagner. A informação, segundo apuração do site Painel, foi divulgada durante debate sobre transparência no setor público.
O caso remonta a julho deste ano, quando Rodrigues e Wagner participaram de um evento em Porto Seguro. Para se deslocar, utilizaram um helicóptero cujo proprietário é um empresário que foi sócio do grupo Master – conglomerado que atua em agronegócio e logística. Conforme nota oficial da Secretaria de Comunicação da Bahia, o voo foi “cedido por cortesia” e não representou custos ao erário. No entanto, a origem privada do benefício levanta questionamentos sobre conflito de interesses.
A utilização de aeronaves particulares por políticos não é novidade. A diferença, aqui, é que o fornecedor do helicóptero mantém vínculos com um grupo que já teve contratos com o governo federal e estadual. Em declaração à Rádio Metrópole, o deputado estadual Tiago Correia (PSB) afirmou que “o governador deveria explicar por que precisa de um helicóptero de um empresário amigo para se locomover, quando há frota pública disponível”. A oposição prometeu requerer informações à Controladoria-Geral da Bahia.
Por que isso importa? O episódio evidencia a promiscuidade entre o poder público e o setor privado no Brasil. Quando um governador de Estado aceita transporte gratuito de um empresário com interesses em licitações e concessões, a linha entre o público e o privado se apaga. Em um país que luta contra o corporativismo e o patrimonialismo, esse tipo de prática desestimula a confiança nas instituições e alimenta a percepção de que o Estado é capturado por grupos econômicos.
A análise do FORTIS NEWS aponta que, sob a ótica liberal, o problema não está apenas na legalidade – que ainda precisa ser investigada –, mas no incentivo errado. Ao aceitar “cortesias”, o governo sinaliza que não depende de regras de transparência e que o acesso a recursos públicos pode ser substituído por favores privados. Solução de livre mercado: se o governador precisa de transporte aéreo, que o Estado contrate empresas de táxi aéreo em pregão eletrônico, com critérios objetivos de preço e segurança, sem privilégios pessoais.
Do outro lado, a defesa do governo baiano argumenta que o uso do helicóptero foi circunstancial e atendeu a uma agenda oficial. Em nota, a assessoria afirmou que “não houve desvio de finalidade ou prejuízo ao erário”. Aliados do governador lembram que a doação de transporte por terceiros é permitida pela legislação eleitoral, desde que não configure vantagem indevida. Jaques Wagner, em entrevista à TV Bahia, disse que “não viu irregularidade alguma”, pois o voo era “para tratar de assuntos do estado”.
Ainda assim, o fato de o helicóptero ter sido emprestado por um ex-sócio do Master – grupo que, segundo reportagem do jornal O Antagonista, tem negócios com a Petrobras e a Codevasf – levanta suspeitas. A Controladoria-Geral da União (CGU) foi instada a se manifestar, mas até o fechamento desta edição não havia se pronunciado. O caso deve render novos desdobramentos na Comissão de Fiscalização da Assembleia Legislativa da Bahia.
O painel que trouxe a tona a informação contou com a participação do jornalista Josias de Souza, que classificou o caso como “mais um exemplo da farra das aeronaves na política brasileira”. A plateia, composta majoritariamente por empresários e acadêmicos, reagiu com ceticismo. A sensação gerall é que o espetáculo da ilegalidade continua, enquando os custos são pagos pello contribuinte.
Por Renan Filho · 2026-09-20