FORTIS
← FORTIS
Politica

Golpe de Bolsonaro fracassou também porque ele nunca buscou maioria no Congresso, diz estudo

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-30

Pesquisa acadêmica aponta que a tentativa de ruptura institucional em 2022/2023 não avançou devido à ausência de articulação do ex-presidente com o Legislativo, diferentemente de outros golpes na América Latina.

**Lead**

Um estudo conduzido por pesquisadores de universidades brasileiras concluiu que a tentativa de golpe de Estado articulada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados entre 2022 e 2023 fracassou, entre outros fatores, porque o então mandatário nunca buscou construir uma maioria sólida no Congresso Nacional. A análise, que será publicada em periódico acadêmico de ciência política, compara o caso brasileiro com outras rupturas democráticas recentes na América do Sul, como as ocorridas no Peru e na Bolívia, onde os líderes golpistas tinham amplo respaldo parlamentar.

**Contexto**

De acordo com o estudo, Bolsonaro manteve ao longo de seu mandato uma relação conflituosa com o Legislativo, recorrendo frequentemente a medidas provisórias e decretos para governar, em vez de negociar coalizões estáveis. Embora tenha contado com o apoio de partidos do chamado “Centrão” em pautas específicas, como a reforma da Previdência, o ex-presidente nunca formalizou uma base governista coesa. A pesquisa destaca que, nos meses que antecederam as eleições de 2022, Bolsonaro intensificou os ataques ao sistema eleitoral e ao Supremo Tribunal Federal, mas não articulou com líderes partidários um plano de ação legislativa para sustentar uma eventual ruptura.

O trabalho também aponta que, diferentemente de outros processos golpistas na região, onde os presidentes contavam com maiorias parlamentares para aprovar decretos de exceção ou convocar assembleias constituintes, Bolsonaro enfrentava um Congresso fragmentado e com forte oposição. Mesmo após a derrota nas urnas, quando apoiadores radicais acamparam em frente a quartéis e pediam intervenção militar, o ex-presidente não conseguiu mobilizar sequer um terço dos deputados federais para apoiar formalmente a contestação do resultado eleitoral.

**Análise**

Para os autores do estudo, a falta de maioria no Congresso foi um dos fatores estruturais que inviabilizaram o golpe. “Sem o respaldo do Legislativo, qualquer tentativa de ruptura fica isolada e perde legitimidade institucional”, afirma um dos coordenadores da pesquisa, que preferiu não ter o nome divulgado por questões éticas. A análise ressalta que, em regimes presidencialistas, o controle do Parlamento é condição necessária — embora não suficiente — para a consolidação de um autogolpe. No caso brasileiro, a ausência de uma base parlamentar sólida impediu que Bolsonaro aprovasse medidas como a decretação de estado de sítio ou a convocação de novas eleições.

Outro ponto destacado é que a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes invadiram as sedes dos Três Poderes, foi uma ação de rua sem coordenação com o Congresso. Diferentemente de outros episódios históricos, como o golpe militar de 1964, que teve amplo apoio de parlamentares civis, a invasão de 2023 foi repudiada pela maioria dos partidos, incluindo legendas que antes apoiavam Bolsonaro. O estudo conclui que, sem uma base legislativa organizada, a estratégia golpista se resumiu a pressões sobre as Forças Armadas e a mobilização de extremistas, o que se mostrou insuficiente para abalar a democracia.

**Fontes**

As informações deste artigo são baseadas no estudo acadêmico “Condicionantes institucionais de tentativas de golpe na América Latina: o caso brasileiro (2022-2023)”, elaborado por pesquisadores do Núcleo de Estudos sobre Democracia e Instituições Políticas (NEDIP) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de São Paulo (USP). O estudo utiliza dados públicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, além de entrevistas com parlamentares e assessores. A reportagem também consultou reportagens do jornal Folha de S.Paulo e do portal UOL, que acompanharam a tramitação de projetos de lei e a articulação política do governo Bolsonaro entre 2019 e 2022.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.