**Lead**
O Brasil chega ao fim de 2026 com um cenário fiscal preocupante: o crescimento acelerado da dívida pública e a rigidez orçamentária impõem um desafio inédito ao próximo governo. O aumento das despesas obrigatórias, combinado à desaceleração da arrecadação, reduz o espaço para investimentos em áreas estratégicas, incluindo a infraestrutura tecnológica, considerada essencial para a modernização do Estado e a retomada sustentável da economia.
**Contexto**
O endividamento público brasileiro vem crescendo de forma consistente nos últimos anos, impulsionado por sucessivos déficits fiscais, pelo pagamento de juros elevados e pela ampliação de programas sociais sem uma contrapartida clara de receitas. O resultado é que a trajetória da dívida, medida em proporção do Produto Interno Bruto (PIB), atingiu níveis que acendem alerta entre analistas e instituições financeiras. A equipe econômica que assumir em janeiro de 2027 terá de lidar com um orçamento cada vez mais engessado, no qual a maior parte dos recursos está vinculada a gastos obrigatórios, como previdência, salários e transferências legais.
Nesse cenário, a margem para investimentos discricionários — aqueles que podem ser remanejados pelo governo — encolheu de forma significativa. Isso afeta diretamente a capacidade de o Estado financiar projetos de modernização, incluindo a digitalização de serviços públicos, a ampliação da conectividade em áreas remotas e o fomento à inovação. O setor de tecnologia, que depende de políticas públicas consistentes e de infraestrutura adequada, tende a sentir os efeitos da restrição fiscal.
A situação é agravada pela elevação das taxas de juros, que aumenta o custo de rolagem da dívida e consome parcela crescente do orçamento. Cada elevação de juros, utilizada para conter pressões inflacionárias, tem impacto direto sobre o endividamento, criando um ciclo vicioso: quanto maior a dívida, maiores os juros; quanto maiores os juros, maior a dívida. Esse movimento reduz a confiança dos agentes econômicos e eleva o chamado risco-país, encarecendo o financiamento de projetos de longo prazo, inclusive aqueles ligados à transformação digital.
**Análise**
A restrição fiscal imposta pela dívida não é apenas um problema macroeconômico; ela tem consequências concretas para o desenvolvimento tecnológico do país. Sem espaço orçamentário, o próximo governo terá dificuldade de dar continuidade a programas de inclusão digital, de apoiar startups e de investir em infraestrutura de dados, como a expansão do 5G e a implementação de data centers públicos. A chamada economia digital, que poderia impulsionar a produtividade e gerar empregos qualificados, depende de um ambiente de estabilidade fiscal que ainda não se consolidou.
Além disso, a falta de previsibilidade orçamentária desestimula o setor privado a investir em parcerias com o poder público. Projetos de inovação, por sua natureza, exigem horizontes de longo prazo e segurança jurídica. Quando o Estado não demonstra capacidade de honrar compromissos ou de manter políticas de Estado contínuas, o capital privado migra para setores menos arriscados, perpetuando o atraso tecnológico.
Especialistas apontam que a saída para esse impasse passa por uma reforma estrutural do gasto público, que priorize a eficiência e a avaliação de resultados. A tecnologia pode ser aliada nesse processo, por meio da modernização da gestão, do combate a fraudes e do aumento da transparência. No entanto, para que isso ocorra, é necessário que o próximo governo enfrente o desafio político de aprovar medidas impopulares e de redesenhar o orçamento.
**Fontes**
As informações deste artigo baseiam-se em relatórios de instituições financeiras, análises de consultorias econômicas e declarações públicas de membros da equipe econômica, além de dados do Banco Central do Brasil e do Tesouro Nacional. Não foram utilizadas fontes anônimas ou informações não verificáveis.
Por Renan Filho · 2026-09-30