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Games entram na estratégia de campanha e na mira de eleitores como tema de segurança em 2026

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-08

Candidatos às eleições de 2026 no Brasil incorporam videogames e plataformas de jogos como canal de comunicação direta com o eleitorado jovem, enquanto críticos apontam riscos à segurança digital e à privacidade de dados.

**Lead**

A campanha eleitoral de 2026 no Brasil ganhou um novo território: os videogames. Candidatos de diferentes espectros políticos passaram a utilizar jogos online e plataformas como Twitch, Discord e servidores privados de jogos populares para alcançar eleitores jovens, que tradicionalmente têm baixa participação nas urnas. No entanto, a iniciativa levanta alertas entre especialistas em segurança digital e organizações de defesa do consumidor, que apontam lacunas na proteção de dados pessoais, riscos de desinformação e vulnerabilidade a ataques cibernéticos em um ambiente historicamente pouco regulado.

**Contexto**

O fenômeno não surgiu do nada. Nas eleições de 2022, algumas candidaturas já testavam o terreno, com lives em jogos como Free Fire e GTA V, mas de forma esporádica e sem coordenação de campanha. Em 2026, a estrutura mudou. Com a aprovação da reforma política que ampliou o tempo de propaganda digital e reduziu o horário gratuito no rádio e TV, partidos passaram a investir em equipes dedicadas a games. Segundo relatos de bastidores, pelo menos três grandes coligações contrataram produtoras especializadas em eventos virtuais dentro de jogos como Minecraft e Roblox, onde é possível construir cenários personalizados, como palanques e comícios interativos.

Críticos, porém, denunciam que a estratégia ignora questões fundamentais de segurança. As plataformas de jogos, muitas vezes operadas por empresas estrangeiras sem representação legal no Brasil, coletam dados como voz, localização e hábitos de consumo. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) se aplica, mas a fiscalização é limitada. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) já abriu ao menos três processos administrativos relacionados a vazamentos em plataformas de jogos entre 2024 e 2026, mas nenhum deles trata especificamente de uso eleitoral. Organizações como o InternetLab e o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) emitiram notas técnicas alertando que candidatos podem estar expondo dados de eleitores a riscos, especialmente menores de idade, que são grande parte do público desses jogos.

**Análise**

A aproximação entre política e games não é apenas uma questão de marketing: ela redefine o que significa fazer campanha em um ambiente digital não moderado. Diferentemente de redes sociais como Instagram ou WhatsApp, onde há algum nível de controle sobre bots e discurso de ódio, os servidores de jogos operam com regras próprias. Um candidato pode, por exemplo, criar um evento em um jogo de tiro e, durante a partida, usar o chat de voz para fazer promessas de campanha sem qualquer registro ou direito de resposta. Para a Justiça Eleitoral, será um desafio fiscalizar esses espaços, já que a legislação atual — a Lei das Eleições (Lei 9.504/1997) — não prevê regras específicas para ambientes gamificados.

Do ponto de vista da segurança, os riscos vão além da privacidade. Ataques de phishing e instalação de malwares disfarçados de mods ou complementos de jogos têm aumentado. Em 2025, um estudo do Centro de Estudos de Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil (CERT.br) mostrou crescimento de incidentes relacionados a jogos online, muitos deles explorando a confiança de usuários em conteúdos políticos. Se um eleitor clicar em um link enviado por um perfil que se apresenta como “equipe de campanha” dentro de um jogo, pode ter seu dispositivo comprometido. Até o momento, nenhum dos candidatos que adotaram a estratégia anunciou medidas concretas de cibersegurança, como criptografia de ponta a ponta nas comunicações ou auditoria independente dos servidores utilizados.

Outro ponto sensível é a moderação de conteúdo. Jogos competitivos, especialmente os de tiro em primeira pessoa, são conhecidos por ambientes tóxicos e discursos agressivos. A presença de figuras políticas nesses espaços pode exacerbar tensões e até gerar situações de assédio digital coordenado contra adversários. Em agosto, um evento não oficial promovido por apoiadores de um candidato teve que ser interrompido após invasão de haters que inundaram o chat com desinformação. O episódio foi registrado em prints e vídeos, mas até agora não houve punição por parte das plataformas, que alegam não ter termos de uso específicos para atividades político-partidárias.

**Fontes**

As informações deste artigo foram obtidas a partir dos seguintes documentos e instituições: - Nota técnica do InternetLab sobre uso de plataformas de jogos em campanhas eleitorais (publicada em setembro de 2026); - Relatório do CERT.br sobre incidentes de segurança em jogos online no Brasil (2025); - Processos administrativos da ANPD sobre vazamento de dados em plataformas de jogos (2024-2026); - Comunicado do IDEC sobre proteção de dados de menores em ambientes digitais (agosto de 2026); - Lei das Eleições (Lei 9.504/1997) e Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018); - Entrevistas de bastidores com profissionais de marketing digital que atuam em campanhas eleitorais, sob condição de anonimato por receio de retaliação profissional.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.