**Lead**
O estado do Amazonas atingiu a marca alarmante de 705 focos de calor registrados em apenas 24 horas, segundo monitoramento por satélite realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O número representa mais que o triplo da média diária registrada no mesmo período nos últimos cinco anos, intensificando a preocupação de ambientalistas, autoridades locais e da comunidade científica sobre a progressão das queimadas na maior floresta tropical do mundo.
**Contexto**
Os dados foram coletados pelo sistema de detecção de queimadas do INPE, que utiliza satélites de referência para mapear focos de calor em tempo real. A concentração das ocorrências se dá principalmente em municípios do sul do Amazonas, próximos a áreas de avanço do agronegócio e de rodovias como a BR-319 e a Transamazônica. Historicamente, os meses de agosto a outubro concentram o pico da estação seca na região, mas as condições deste ano são excepcionais.
O estado enfrenta uma das piores secas já registradas, com níveis dos rios abaixo da média histórica – o Rio Negro, em Manaus, atingiu a menor cota em mais de 120 anos de medição. A seca extrema, agravada pelo fenômeno El Niño e pelo aquecimento das águas do Atlântico Norte, reduz a umidade do ar e da vegetação, criando condições propícias para a propagação de queimadas, muitas delas de origem criminosa para limpeza de pastagens e expansão agrícola.
Além do dado de 705 focos em 24 horas, o acumulado de janeiro até outubro de 2026 já supera o total de todo o ano anterior no Amazonas, segundo estatísticas preliminares do INPE. A fumaça resultante das queimadas tem se deslocado para outras regiões do país, afetando a qualidade do ar em estados como Rondônia, Mato Grosso e até mesmo no Sudeste, com registros de céu encoberto e aumento de problemas respiratórios.
**Análise**
A escalada dos focos de calor no Amazonas vai além de um fenômeno sazonal agravado pela seca. Ela reflete um padrão de uso da terra que combina grilagem, especulação fundiária e incentivos indiretos à conversão de floresta em áreas produtivas. A ausência de fiscalização efetiva em vastas áreas de difícil acesso permite que o fogo seja utilizado como ferramenta barata e rápida de desmatamento, com baixo risco de punição.
O impacto imediato é sentido na saúde pública: hospitais de Manaus e de cidades do interior já registraram aumento de atendimentos por doenças respiratórias, especialmente entre crianças e idosos. A longo prazo, a perda de cobertura florestal reduz a capacidade de evapotranspiração, comprometendo o regime de chuvas em toda a América do Sul e acelerando as mudanças climáticas. Estudos indicam que o desmatamento no Amazonas pode reduzir em até 30% a precipitação na região Centro-Oeste, onde está a principal produção de grãos do país.
A crise também tem desdobramentos econômicos. A fumaça afeta o transporte aéreo e fluvial, e a redução de recursos naturais impacta comunidades indígenas e ribeirinhas que dependem da floresta para subsistência. A pressão internacional sobre o Brasil tende a aumentar, com potenciais repercussões em acordos comerciais e no financiamento de projetos ambientais.
**Fontes**
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) – Programa Queimadas: dados de focos de calor monitorados por satélites de referência. Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (SEMA-AM): boletins sobre a estação seca e ações de combate a incêndios florestais. Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA): operações de fiscalização na região. Organização Meteorológica Mundial (OMM): relatórios sobre El Niño e condições climáticas na Amazônia.
Por Renan Filho · 2026-10-18