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O Amazonas viveu nas últimas 24 horas um salto alarmante nos registros de focos de calor. Dados do Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) apontam que o estado contabilizou 705 focos ativos entre a manhã de sábado e a manhã de domingo. O número representa mais que o triplo da média histórica para o mês de outubro, que gira em torno de 200 ocorrências diárias. A situação coloca em xeque a capacidade de resposta do poder público e expõe a fragilidade do bioma diante da combinação letal entre seca extrema e ação humana criminosa.
**Contexto**
O recorde diário de focos de calor no Amazonas não é um fenômeno isolado. Ele se insere em um cenário de agravamento progressivo das condições climáticas na Amazônia Legal. Desde junho, a região enfrenta uma das piores estiagens já registradas, com rios como o Negro e o Solimões atingindo níveis historicamente baixos. A falta de chuvas, associada a temperaturas acima da média, cria um ambiente propício para a propagação do fogo, seja ele de origem natural ou, como na maioria dos casos, provocado por ação antrópica para limpeza de pastagens e áreas de cultivo.
Os 705 focos registrados nas últimas 24 horas concentram-se, em sua maioria, nos municípios do sul do estado, como Lábrea, Canutama e Boca do Acre, regiões de forte pressão agropecuária. Dados do INPE indicam que, apenas em outubro, o Amazonas já acumula mais de 4 mil focos de calor, número que supera o total registrado em todo o mês de outubro do ano passado. O governo estadual, por meio da Secretaria de Meio Ambiente, reconheceu o agravamento da situação e informou que equipes de brigadistas foram deslocadas para as áreas críticas, mas a logística é dificultada pela seca dos rios, que inviabiliza o transporte fluvial e o acesso a comunidades isoladas.
A situação no Amazonas reflete um padrão que se repete em toda a Amazônia Legal. Dados consolidados do INPE mostram que, nos primeiros 18 dias de outubro, a região como um todo registrou mais de 15 mil focos de calor, um aumento de aproximadamente 40% em relação ao mesmo período do ano anterior. Os estados do Pará e do Mato Grosso também apresentam números elevados, mas é no Amazonas que a escalada é mais vertiginosa, com picos diários que não eram vistos desde a crise de queimadas de 2019.
**Analise**
O salto nos focos de calor no Amazonas não é apenas um dado estatístico. Ele representa uma falha sistêmica na governança ambiental e no combate ao desmatamento ilegal. A seca histórica, agravada pelos efeitos das mudanças climáticas e pelo fenômeno El Niño, cria as condições ideais para o fogo, mas são as ações humanas — grilagem, expansão agropecuária ilegal e queimadas não autorizadas — que acendem o pavio. O fato de os focos se concentrarem em áreas de fronteira agrícola sugere que o desmatamento continua a avançar, muitas vezes com conivência ou omissão dos órgãos de fiscalização.
O impacto imediato é sentido pela população local. Comunidades ribeirinhas e indígenas, que já sofrem com a estiagem e a falta de água potável, agora enfrentam a fumaça tóxica das queimadas, que provoca problemas respiratórios e obriga ao fechamento de escolas e postos de saúde. A longo prazo, a perda de cobertura florestal compromete o regime de chuvas em toda a América do Sul e acelera o aquecimento global. O Brasil, que sediará a COP30 em 2025, vê sua credibilidade ambiental ser corroída a cada novo recorde de queimadas.
A resposta do poder público, até o momento, tem sido insuficiente. O governo federal anunciou a liberação de recursos extras para o combate a incêndios, mas a burocracia e a falta de integração entre os entes federativos retardam as ações. O Exército foi acionado para apoiar a logística, mas o efetivo disponível é pequeno diante da vastidão do território afetado. Sem uma estratégia coordenada que una monitoramento por satélite, fiscalização em tempo real e punição efetiva aos infratores, os focos de calor continuarão a se multiplicar, transformando a Amazônia em uma imensa chaminé a céu aberto.
**Fontes**
- Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) — dados de focos de calor ativos em 24 horas. - Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Amazonas (SEMA-AM) — comunicados sobre situação de emergência e ações de combate. - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) — relatórios de fiscalização e operações na região.
Por Renan Filho · 2026-10-18