**Lead**
A escolha de Flávio Dino de cancelar a participação na sabatina do SBT para comparecer a um ato com apoiadores, em plena reta final da campanha presidencial de 2026, não é um mero ajuste de agenda. É um sinal preocupante sobre a relação entre candidatos e a imprensa livre, e sobre a disposição de submeter propostas ao escrutínio público. O gesto, que pode ser interpretado como priorização da militância em detrimento do debate qualificado, levanta questões sobre o compromisso real com a transparência e a pluralidade de vozes que deveriam pautar o processo eleitoral.
**Contexto**
Flávio Dino, ex-governador do Maranhão, ex-ministro da Justiça e atualmente pré-candidato à Presidência da República pelo PT, construiu sua trajetória política sobre a bandeira do diálogo e da participação popular. No entanto, a decisão de recusar o convite do SBT — uma das principais emissoras do país, com alcance nacional e histórico de sabatinas rigorosas — contrasta com esse discurso. A sabatina, que ocorreria na próxima semana, faz parte de uma série de entrevistas com presidenciáveis promovidas pelo canal, conhecidas por confrontar os convidados com perguntas incisivas sobre propostas, passado político e contradições.
A justificativa oficial, segundo assessores, foi a coincidência com um ato político em São Paulo, onde Dino pretende reunir lideranças de movimentos sociais e sindicais. A escolha de um evento fechado para apoiadores, em vez de um debate aberto mediado por jornalistas, não é inédita na política brasileira, mas ganha contornos específicos neste momento. O candidato enfrenta críticas de setores do centro e da esquerda moderada por uma suposta falta de clareza em temas como política econômica e reforma tributária. A sabatina seria uma oportunidade de esclarecer pontos nebulosos e demonstrar preparo para o cargo.
**Análise**
A recusa em participar de uma sabatina de grande porte não é apenas uma questão de logística. Ela reflete uma estratégia de comunicação que privilegia o contato com bases já convertidas, em detrimento do diálogo com eleitores indecisos e com a imprensa independente. Em um cenário de polarização e desinformação, candidatos que evitam o confronto direto com jornalistas profissionais correm o risco de alimentar bolhas e reduzir o espaço para o contraditório. A ausência de Dino no SBT pode ser lida como um sinal de que sua campanha aposta mais na mobilização afetiva do que na consistência programática.
Do ponto de vista democrático, a sabatina é um dos poucos momentos em que o eleitor tem acesso a um questionamento aprofundado, sem o filtro das redes sociais ou dos discursos ensaiados. Ao optar pelo ato com apoiadores, Dino troca o debate público por um monólogo de palanque. Isso não é exclusivo dele — outros candidatos já fizeram escolhas semelhantes —, mas ganha relevância por vir de uma figura que sempre se apresentou como defensor da transparência e do combate às fake news. A contradição entre o discurso e a prática pode custar caro em termos de credibilidade, especialmente entre eleitores que valorizam a independência da imprensa.
**Impacto e tendências**
A decisão de Flávio Dino também deve ser analisada à luz do contexto mais amplo da campanha. Pesquisas recentes (sem números exatos, mas com tendência clara) indicam que o eleitorado brasileiro está mais atento à postura dos candidatos em relação à mídia. A rejeição a figuras que evitam entrevistas ou que hostilizam jornalistas tem crescido, especialmente após os episódios de ataques à imprensa nos últimos anos. Dino, que já criticou abertamente a postura de adversários em relação ao jornalismo, agora se vê na berlinda por adotar uma tática similar.
Além disso, a ausência na sabatina do SBT pode abrir espaço para que outros candidatos ocupem o vácuo de debate. O eleitor que busca informação qualificada pode se voltar para aqueles que aceitam o confronto de ideias. Em uma eleição que promete ser acirrada, cada gesto conta. A priorização do ato com apoiadores, embora compreensível do ponto de vista de mobilização de base, pode ser interpretada como um recuo diante do escrutínio público. O tempo dirá se a estratégia foi acertada ou se representou um erro de cálculo político.
**Fontes**
A análise baseia-se em informações públicas sobre a agenda de Flávio Dino divulgadas por sua assessoria de imprensa, na cobertura de veículos como Folha de S.Paulo e O Globo sobre a série de sabatinas do SBT, e em declarações anteriores do próprio político sobre a importância do diálogo com a imprensa. Não foram utilizados dados numéricos de pesquisas eleitorais, apenas a percepção geral do cenário político brasileiro em outubro de 2026.
Por Renan Filho · 2026-10-22