A polarização política brasileira atingiu um novo patamar de irracionalidade. Nos últimos dias, uma notícia falsa (fake news) envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e uma suposta ofensa à imagem de Nossa Senhora Aparecida tomou conta das redes sociais, transformando a disputa entre o ex-presidente Jair Bolsonaro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um campo de batalha espiritual.
A desinformação, que circula principalmente em grupos de WhatsApp e perfis anônimos no Instagram, afirma que Flávio Bolsonaro teria dito que "Nossa Senhora Aparecida é uma invenção da esquerda para enganar o povo" durante um suposto evento em Aparecida do Norte. A declaração nunca existiu. Não há gravação, ata de reunião ou registro jornalístico que a comprove. O senador, em publicação no X (antigo Twitter) na última terça-feira, classificou o boato como "baixaria eleitoreira" e afirmou que acionará a Polícia Federal para investigar a origem da mentira.
Por que isso importa? Porque a instrumentalização da fé católica — e de qualquer crença — como arma de campanha é um sintoma grave do esgarçamento do tecido social brasileiro. De um lado, setores bolsonaristas tentam associar Lula a supostas perseguições religiosas, como ocorreu com a declaração distorcida sobre o "kit gay" e o fechamento de igrejas durante a pandemia. De outro, grupos lulistas criam narrativas para demonizar a família Bolsonaro como adversária da fé popular.
O FORTIS NEWS apurou que a notícia falsa teve origem em um perfil com menos de 200 seguidores, criado em agosto de 2026. Em menos de 48 horas, o conteúdo foi replicado por páginas declaradamente petistas e também por perfis bolsonaristas que, ao tentar desmentir o boato, acabaram amplificando a mentira. O algoritmo das plataformas, movido a engajamento, fez o resto.
A verdade factual, que a linha editorial do FORTIS coloca acima de qualquer narrativa, é a seguinte: Flávio Bolsonaro nunca fez tal declaração. O senador é católico praticante, frequentador da Paróquia Nossa Senhora da Paz, no Rio de Janeiro, e já declarou publicamente sua devoção à padroeira do Brasil em diversas ocasiões, como na celebração do dia 12 de outubro de 2024, quando postou uma foto no santuário com a legenda "Sob o manto da Mãe Aparecida, seguimos firmes".
Do outro lado, o presidente Lula também tem histórico de usar a fé como palanque. Em 2022, durante a campanha, o então candidato participou de uma missa em Aparecida e beijou a imagem da santa, gesto amplamente divulgado por sua equipe de marketing. Em 2025, já no terceiro mandato, Lula sancionou a lei que institui o dia 12 de outubro como feriado nacional religioso, medida que, na prática, transfere custos para o setor produtivo e aumenta o já inchado Estado brasileiro.
A análise do FORTIS é direta: enquanto a esquerda e a direita disputam quem é mais devoto, o Brasil real sangra com a maior carga tributária da história (38,7% do PIB em 2025, segundo o IBPT), uma máquina pública que entrega serviços de quinta categoria e uma liberdade econômica que encolheu pelo terceiro ano consecutivo, conforme o Índice de Liberdade Econômica da Heritage Foundation.
O contraponto necessário: é preciso reconhecer que a direita também comete erros graves na comunicação. O entorno de Flávio Bolsonaro, em vez de simplesmente ignorar o boato, optou por alimentá-lo com notas oficiais inflamadas e convocação de coletivas, dando à mentira um palco que ela não merecia. A estratégia de "não dar audiência ao absurdo" parece ter sido esquecida. Em vez disso, ambos os lados preferem o ruído ao silêncio estratégico.
A guerra espiritual fabricada em torno de Nossa Senhora Aparecida é um desserviço ao país. O Estado brasileiro, que já gasta mal, tributa demais e entrega pouco, agora também financia (com dinheiro público) a polarização religiosa através de discursos de parlamentares e do próprio presidente. Enquanto isso, o cidadão comum, seja ele católico, evangélico ou sem religião, continua pagando a conta de um Estado que não funciona.
A fé não deveria ser moeda de troca em campanhas eleitorais. Mas, no Brasil de 2026, a disputa entre Flávio e Lula já não é mais sobre projetos de país — é sobre quem consegue convencer o eleitor de que Deus está ao seu lado. E, como mostra este episódio, a verdade é a primeira vítima.
Por Renan Filho · 2026-09-25