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Flávio e Michelle Bolsonaro se aproximam de bispo que defendeu retirada do título de padroeira do Brasil

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-30

O senador Flávio Bolsonaro e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro participaram de evento com o bispo Dom Robson de Oliveira, que em 2024 sugeriu a remoção do título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do país. Encontro reacende debate sobre laicidade e influência religiosa na política.

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O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF) participaram, na última segunda-feira (28), de um evento religioso em Goiânia (GO) no qual o principal celebrante foi o bispo Dom Robson de Oliveira Pereira, da Diocese de Goiás. Dom Robson ganhou notoriedade nacional em 2024 ao defender a retirada do título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira oficial do Brasil, argumentando que a devoção popular à santa negra teria origens em práticas de sincretismo religioso que, segundo ele, “não representam a essência da fé católica”. O encontro, que reuniu lideranças evangélicas e católicas conservadoras, foi classificado por assessores do senador como “um gesto de aproximação entre o campo político e lideranças religiosas comprometidas com os valores cristãos tradicionais”.

**Contexto**

Dom Robson de Oliveira, de 49 anos, foi nomeado bispo da Diocese de Goiás em 2023 pelo Papa Francisco e, desde então, tem se destacado por posições consideradas radicais dentro da Igreja Católica. Em julho de 2024, durante uma palestra em um congresso de teologia em Aparecida (SP), ele afirmou que o título de “Rainha e Padroeira do Brasil” concedido a Nossa Senhora Aparecida — santa de pele escura encontrada por pescadores no Rio Paraíba do Sul em 1717 — “deveria ser revisto, porque a imagem não foi aprovada oficialmente pelo Vaticano e sua origem é incerta”. A declaração gerou forte reação negativa entre fiéis católicos, especialmente no estado de São Paulo, onde a devoção à santa é uma das mais expressivas do país. O arcebispo de Aparecida, Dom Orlando Brandes, repudiou a fala do bispo de Goiás, classificando-a como “desrespeitosa à memória de milhões de brasileiros que encontram na santa negra um símbolo de acolhimento e identidade nacional”.

A família Bolsonaro, que historicamente se alinhou a setores evangélicos e católicos conservadores, já havia demonstrado simpatia por discursos que questionam a santidade de Nossa Senhora Aparecida. Em 2019, o então presidente Jair Bolsonaro afirmou, durante um culto em Brasília, que “o Brasil é um país cristão e que os santos populares não podem substituir Jesus Cristo”. A declaração foi interpretada por analistas como uma tentativa de agradar a base evangélica, que representa cerca de 30% do eleitorado brasileiro. Michelle Bolsonaro, conhecida por sua fé evangélica e por ter participado de eventos com líderes neopentecostais, esteve ao lado do marido em diversas ocasiões em que a figura de Nossa Senhora foi relativizada. O encontro com Dom Robson, portanto, insere-se em uma estratégia política de aproximação com lideranças religiosas que defendem uma visão mais estrita da doutrina cristã.

**Análise**

A aproximação de Flávio e Michelle Bolsonaro com Dom Robson sinaliza uma tentativa de consolidar o eleitorado religioso conservador de olho nas eleições de 2026. O senador Flávio, que tenta se manter como liderança do PL no Senado, busca ampliar sua base entre católicos tradicionalistas e evangélicos que veem com desconfiança a devoção popular a santos como Nossa Senhora Aparecida. Para Michelle, que já foi cotada como candidata ao Senado ou à Câmara dos Deputados em 2026, a aliança com bispos e pastores que questionam a padroeira nacional pode funcionar como um trunfo eleitoral, especialmente em estados do Centro-Oeste e do Norte, onde a influência de igrejas neopentecostais é mais forte.

No entanto, a movimentação não é isenta de riscos. A devoção a Nossa Senhora Aparecida é uma das mais enraizadas do Brasil, com milhões de fiéis que participam anualmente da romaria ao Santuário de Aparecida, no interior paulista. Qualquer sinal de desprestígio à santa negra pode gerar reação negativa entre católicos moderados e progressistas, que enxergam na padroeira um símbolo de resistência e da miscigenação cultural brasileira. Além disso, a postura de Dom Robson, que já foi criticado por lideranças católicas por seu tom extremista, pode afastar eleitores mais moderados. O episódio reacende, ainda, o debate sobre os limites entre religião e política no Brasil. Especialistas em direito constitucional alertam que, embora a liberdade religiosa seja garantida, a defesa de que o país não tenha uma padroeira oficial — título concedido pelo Vaticano em 1930 e confirmado pelo decreto-lei 2.920 do presidente Getúlio Vargas — pode ser visto como um ataque à identidade nacional.

Em um país onde 64% da população se declara católica, segundo dados do Datafolha de 2020, a discussão sobre a padroeira extrapola o campo religioso e toca em questões de identidade cultural e racial. A imagem de Nossa Senhora Aparecida é frequentemente associada à luta contra o racismo e à valorização da cultura afro-brasileira, o que torna o debate ainda mais sensível. A união entre a família Bolsonaro e Dom Robson, portanto, não se trata apenas de um evento religioso, mas de uma jogada política que pode redefinir alianças eleitorais e expor fraturas dentro do campo conservador.

**Fontes**

- Declarações de Dom Robson de Oliveira Pereira em congresso de teologia em Aparecida (SP), julho de 2024, repercutidas pela Agência Brasil e portal G1. - Discurso do ex-presidente Jair Bolsonaro em culto evangélico em Brasília, 2019, registrado pela imprensa nacional. - Dados do Datafolha sobre perfil religioso da população brasileira, 2020. - Nota oficial do arcebispo de Aparecida, Dom Orlando Brandes, repudiando as declarações do bispo de Goiás, 2024. - Informações sobre a nomeação de Dom Robson de Oliveira ao bispado, Diário Oficial da União, 2023.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.