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Politica

Flavio e Michelle Bolsonaro se aproximam de bispo que defendeu retirada do título de padroeira do Brasil

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-30

O casal Bolsonaro ampliou o diálogo com um bispo da Igreja Universal que questionou a oficialização de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do país. Movimento reforça a estratégia de aproximação com o eleitorado evangélico.

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O ex-presidente Jair Bolsonaro e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro se aproximaram nos últimos meses de um bispo que ganhou notoriedade ao defender a retirada do título oficial de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. O movimento, confirmado por aliados dos dois lados, ocorre em meio a um realinhamento das lideranças conservadoras e a uma ofensiva de Michelle para se firmar como principal articuladora política da família Bolsonaro junto a lideranças religiosas.

**Contexto**

O bispo em questão é uma das vozes mais ativas dentro da ala mais radicalizada da Igreja Universal do Reino de Deus. Em manifestações públicas, ele já argumentou que o reconhecimento de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, instituído por decreto em 1930 e ratificado por lei em 1980, representaria uma "primazia católica" incompatível com a laicidade do Estado. A posição, embora minoritária entre lideranças evangélicas, repercutiu fortemente nas redes sociais e encontrou eco em setores do bolsonarismo que veem no combate a símbolos católicos uma forma de afirmar a identidade evangélica.

A aproximação com o bispo se deu em encontros reservados, incluindo uma reunião na casa de aliados em Brasília e uma visita de Michelle a um templo da Universal em São Paulo. Pessoas ligadas ao entorno do casal afirmam que a pauta principal não foi a discussão teológica, mas sim a construção de uma aliança política para as eleições. O bispo, por sua vez, tem interesse em ampliar a influência da Universal no cenário nacional e enxerga em Michelle uma ponte privilegiada para acessar a cúpula do bolsonarismo.

A relação entre os Bolsonaro e a Igreja Universal, no entanto, não é nova. Historicamente, a Universal apoiou a candidatura de Jair Bolsonaro em 2018 e manteve interlocução com o governo federal, especialmente por meio do chamado orçamento secreto, quando parlamentares ligados à igreja foram beneficiados com emendas. O que chama a atenção agora é a publicidade dada ao diálogo com um bispo especificamente conhecido pela defesa de uma pauta anticatólica, algo que pode constranger a ala mais moderada do arco de aliados do ex-presidente.

**Análise**

A aproximação explícita com um bispo que questiona o título de padroeira do Brasil tem um significado político claro: a disputa pelo eleitorado evangélico, segmento que representa cerca de um terço da população brasileira e que se tornou decisivo nas últimas eleições. Ao flertar com pautas caras a esse público, Michelle Bolsonaro tenta consolidar sua imagem de liderança capaz de dialogar com as igrejas sem passar pela intermediação de lideranças católicas, que historicamente orbitaram o centro do poder no país.

Especialistas em ciências políticas apontam que o movimento pode ser lido como parte de uma estratégia mais ampla de diferenciação dentro da direita brasileira. Com a polarização entre Jair Bolsonaro e outras lideranças conservadoras que também cortejam o eleitorado evangélico, a família Bolsonaro busca reposicionar Michelle como uma figura central na articulação com as bases religiosas. O bispo, nesse cenário, funciona como um ativo político: sua capacidade de mobilizar as redes e de pautar a agenda conservadora compensa o desgaste que a pauta anticatólica pode causar em segmentos mais tradicionais.

Por outro lado, a movimentação carrega riscos. A defesa da retirada do título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida mexe com um símbolo fortemente enraizado na cultura brasileira, inclusive entre muitos evangélicos que veem a santa como parte da identidade nacional, independentemente de aspectos religiosos. Ao se vincular a uma posição radical, o casal Bolsonaro pode alienar aliados católicos e parte do centro político, que já enxerga com reservas a guinada extremista de alguns setores do bolsonarismo.

A avaliação interna é de que o benefício eleitoral no curto prazo supera o risco. Pesquisas qualitativas, embora não divulgadas oficialmente, indicam que a figura de Michelle tem alta rejeição entre católicos praticantes, mas enorme potencial de crescimento entre evangélicos neopentecostais, especialmente mulheres. A aposta, portanto, é na consolidação dessa base, mesmo que isso signifique endurecer o discurso em um tema sensível como a religiosidade oficial do Estado.

**Fontes**

As informações foram obtidas por meio de contatos com aliados do entorno de Michelle Bolsonaro e de lideranças religiosas que participaram dos encontros, sob condição de anonimato. A reportagem também se baseia em declarações públicas do bispo, repercutidas na imprensa e em suas redes sociais, e em reportagens anteriores de veículos como Folha de S.Paulo e O Globo sobre a relação entre a Igreja Universal e o governo Bolsonaro.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.