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O ministro Flávio Dino deve viajar a Washington nas próximas semanas para uma articulação com integrantes do governo Trump, segundo relatos de aliados. A pauta principal da missão, de acordo com interlocutores, envolve cooperação científica e tecnológica entre Brasil e Estados Unidos, com ênfase em áreas como pesquisa climática, transição energética e inteligência artificial aplicada a políticas públicas.
A informação foi antecipada por fontes próximas ao ministro e ainda não foi confirmada oficialmente pela assessoria do STF. A viagem, se concretizada, ocorreria em um momento de redesenho das relações bilaterais, com o governo americano endurecendo regras para intercâmbio acadêmico e para o compartilhamento de dados científicos.
**Contexto**
Flávio Dino é ministro do Supremo Tribunal Federal desde fevereiro de 2024, após ter comandado o Ministério da Justiça e Segurança Pública no governo Lula. Antes disso, foi governador do Maranhão por dois mandatos e, no início dos anos 2000, juiz federal. Sua atuação no STF tem se concentrado em temas de direitos fundamentais, regulação de plataformas digitais e questões ambientais, o que o aproxima do debate científico sobre mudanças climáticas e políticas de inovação.
A possível viagem ocorre em um cenário de tensão e também de oportunidades na relação científica entre os dois países. O governo Trump promoveu cortes orçamentários em agências federais de pesquisa, como a NOAA e a NSF, e impôs restrições a acordos internacionais de cooperação que envolvam instituições brasileiras. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos seguem interessados em parcerias nas áreas de mineração estratégica, biocombustíveis, monitoramento da Amazônia e semicondutores.
Aliados de Dino afirmam que o ministro pretende atuar como uma ponte entre a comunidade científica brasileira e setores do governo americano que ainda enxergam valor na cooperação bilateral. A agenda incluiria encontros com membros do Departamento de Estado, da Agência de Proteção Ambiental americana (EPA) e com representantes de universidades e think tanks de Washington.
A articulação acontece em um momento em que o governo brasileiro tenta ampliar sua presença em fóruns globais de ciência e tecnologia, enquanto o Congresso americano debate projetos que podem limitar a participação de pesquisadores estrangeiros em áreas sensíveis. O plano de Dino é defender um modelo de cooperação transparente, com cláusulas que garantam reciprocidade e proteção à propriedade intelectual.
**Análise**
A ida de Dino a Washington, ainda que preliminar, carrega um simbolismo relevante. Trata-se de um ministro do STF, ex-ministro da Justiça, com perfil progressista, dialogando diretamente com uma administração republicana que adota discurso cético em relação à agenda climática multilateral. A movimentação sugere que o governo brasileiro busca canais não-oficiais para manter abertos alguns fluxos de cooperação, independentemente das resistências ideológicas de setores do governo Trump.
Na prática, a viagem pode abrir espaço para acordos bilaterais em ciência de dados ambientais, monitoramento de desmatamento e tecnologias de energia limpa. O Brasil tem vantagens comparativas nessas áreas, e os Estados Unidos possuem infraestrutura de pesquisa de ponta. Um eventual memorando de entendimento entre as partes poderia destravar recursos para projetos conjuntos, especialmente no âmbito de universidades públicas brasileiras e instituições de pesquisa americanas.
Há, contudo, riscos de que a articulação seja vista com desconfiança no meio científico. A comunidade acadêmica brasileira reagiu com críticas às políticas do governo Trump em relação à ciência, especialmente após restrições impostas por sua administração anterior e a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris. Para que a empreitada de Dino tenha legitimidade, será preciso demonstrar que o diálogo ocorre sem abrir mão de princípios como autonomia científica e proteção de dados.
A movimentação também ocorre em um momento de indefinição sobre o papel do Brasil na agenda de segurança climática global. Com a proximidade da COP30, realizada em Belém, há uma janela de oportunidades para que o país se posicione como líder em ciência tropical e em tecnologias de adaptação às mudanças climáticas. A capacidade de Dino de articular em Washington pode ser um termômetro da disposição americana em colaborar com essa agenda.
Outro ponto relevante é o impacto no ambiente político doméstico. A viagem de um ministro do STF ao exterior raramente passa despercebida, e críticos podem interpretar a articulação como uma extrapolação de suas funções. Por outro lado, defensores argumentam que a diplomacia científica é uma atribuição legítima de qualquer autoridade pública que busque benefícios para o país.
**Fontes**
As informações são de aliados de Flávio Dino que relataram a articulação à imprensa brasileira. Não há até o momento comunicado oficial do STF sobre a viagem.
Reportagens recentes da imprensa nacional mencionaram a existência de conversas preliminares entre representantes do entorno do ministro e interlocutores americanos ligados ao governo Trump, sem entrar em detalhes sobre os nomes envolvidos.
A assessoria do STF foi procurada, mas não confirmou a agenda. O Itamaraty também não se manifestou oficialmente sobre a possível viagem que, no atual estágio, é tratada nos bastidores como uma articulação embrionária.
Por Renan Filho · 2026-10-28