**Lead**
O ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, participou na última segunda-feira de uma reunião fora da agenda oficial com motoboys na zona sul de São Paulo. O encontro, articulado pelo governador Tarcísio de Freitas e pelo prefeito Ricardo Nunes, teve como foco principal a aplicação de métodos científicos para melhorar as condições de trabalho, a segurança viária e a saúde dos entregadores que utilizam motocicletas. A reunião ocorreu em um centro de distribuição de aplicativos de delivery e contou com a presença de representantes de associações de motoboys e pesquisadores da área de mobilidade urbana.
**Contexto**
A categoria dos motoboys cresceu exponencialmente no Brasil nos últimos anos, impulsionada pela expansão dos aplicativos de entrega. Estima-se que mais de 1,5 milhão de trabalhadores atuem nesse setor, muitos em condições precárias e com alta exposição a riscos. Acidentes de trânsito, problemas ergonômicos e doenças relacionadas ao estresse são recorrentes. Estudos recentes da Universidade de São Paulo (USP) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontam que a taxa de mortalidade entre motociclistas profissionais é três vezes maior do que a média dos demais trabalhadores.
Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes vêm defendendo a criação de um programa integrado de pesquisa e regulação para o setor. O governador já havia sinalizado interesse em transformar a capital paulista em um laboratório vivo de mobilidade urbana, com coleta de dados em tempo real sobre rotas, tempo de entrega e acidentes. A presença de Flávio Dino, que comanda a Polícia Rodoviária Federal e tem acesso a bases de dados nacionais de trânsito, foi vista como uma oportunidade de alinhar esforços federais com as iniciativas locais.
Durante a reunião, foram apresentados protótipos de sensores vestíveis que monitoram sinais vitais dos motoboys, como frequência cardíaca e níveis de fadiga, além de dispositivos de segurança acoplados às motos que registram impactos e frenagens bruscas. Os dados seriam anonimizados e utilizados para alimentar modelos de inteligência artificial capazes de prever rotas mais seguras e sugerir pausas obrigatórias. A proposta, segundo participantes, é transformar a experiência dos entregadores em uma fonte de evidências científicas para políticas públicas.
**Análise**
A reunião sinaliza uma mudança de paradigma na abordagem do poder público em relação ao trabalho por aplicativo. Em vez de apenas regulamentar por decreto ou lei, os gestores estão buscando embasamento científico para tomar decisões. Isso é particularmente relevante em um momento em que o Supremo Tribunal Federal (STF) discute a constitucionalidade de leis municipais que exigem cadastro e equipamentos de segurança para motoboys. Dados robustos podem fornecer subsídios técnicos para a corte e para o Legislativo.
Do ponto de vista da ciência da mobilidade, o encontro representa um avanço na integração entre pesquisa acadêmica e gestão pública. A cidade de São Paulo, com sua frota estimada em 300 mil motos de delivery, oferece um campo de estudo único. Pesquisadores do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e da Escola Politécnica da USP já demonstraram interesse em participar de um eventual programa de monitoramento contínuo. A parceria com o Ministério da Justiça pode viabilizar o acesso a dados de infrações e acidentes registrados pela PRF, ampliando a escala das análises.
Outro aspecto científico abordado foi a saúde mental dos entregadores. Estudos da Faculdade de Medicina da USP indicam que a pressão por entregas rápidas, combinada com a instabilidade de renda, eleva os índices de ansiedade e depressão na categoria. Durante a reunião, foram discutidos protocolos de pausa forçada baseados em algoritmos que detectam padrões de comportamento de risco, como aceleração excessiva ou desvios de rota frequentes. A ideia é que o próprio aplicativo, em parceria com o poder público, possa intervir antes que um acidente ocorra.
**Fontes**
As informações foram obtidas junto a participantes da reunião que preferiram não se identificar, mas que confirmaram a presença de Flávio Dino, Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes. A assessoria de imprensa do Ministério da Justiça não comentou oficialmente o encontro, mas fontes internas confirmaram a pauta científica. Dados sobre acidentes e saúde de motoboys foram extraídos de publicações da USP e da Fiocruz, disponíveis em seus respectivos portais de pesquisa. A Prefeitura de São Paulo e o Governo do Estado também foram consultados, mas não se pronunciaram até o fechamento desta edição.
Por Renan Filho · 2026-10-13