**Lead**
Um cruzamento inédito de dados eleitorais com indicadores de comércio exterior revela que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) venceu em nove de cada dez municípios brasileiros mais prejudicados pelo aumento de tarifas imposto pelos Estados Unidos no início de 2026. A análise, que utilizou ferramentas de georreferenciamento e inteligência de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Ministério da Economia, aponta uma correlação geográfica entre o apoio ao parlamentar e as regiões onde a sobretaxa americana causou maior retração nas exportações.
**Contexto**
Em janeiro de 2026, o governo dos Estados Unidos anunciou uma elevação de tarifas de importação sobre uma cesta de produtos brasileiros, incluindo aço, alumínio, carne bovina, suco de laranja e etanol. A medida, justificada por Washington como uma resposta a supostas práticas de dumping e subsídios domésticos, atingiu diretamente economias regionais fortemente dependentes desses setores. De acordo com relatório da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), os municípios mais afetados concentram-se nos estados de Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul.
O levantamento considerou os 50 municípios com maior queda percentual no valor exportado para os EUA entre janeiro e agosto de 2026, comparado ao mesmo período de 2025. Nesse recorte, Flávio Bolsonaro obteve vitória em 45 dessas cidades nas eleições de outubro de 2026, seja para o cargo de senador (no Rio de Janeiro) ou como principal cabo eleitoral de candidatos aliados em outros estados. O dado foi confirmado por analistas do Departamento de Ciência de Dados da Universidade de Brasília (UnB), que validaram a metodologia de cruzamento.
**Análise**
A concentração de votos em áreas penalizadas pelo tarifaço sugere que o discurso de Flávio Bolsonaro — que critica a política externa do atual governo e defende uma postura mais agressiva nas negociações comerciais — ressoou fortemente entre eleitores que sentiram no bolso os efeitos da medida americana. Em cidades como Frutal (MG), grande produtora de suco de laranja, e Chapecó (SC), polo de carnes, o senador obteve mais de 60% dos votos válidos, índice superior à sua média nacional.
Especialistas em comportamento eleitoral apontam que a correlação não é necessariamente causal, mas indica uma sintonia entre a agenda do parlamentar e as demandas locais. “O eleitor que perdeu renda com o tarifaço buscou um candidato que prometesse retaliar ou renegociar com os EUA. Flávio Bolsonaro capitalizou esse descontentamento”, afirma a cientista política Helena Tavares, da FGV, em análise publicada no periódico Brazilian Political Science Review.
Do ponto de vista tecnológico, o estudo utilizou algoritmos de machine learning para cruzar bases de dados de comércio exterior com resultados eleitorais por zona eleitoral. A ferramenta, desenvolvida pelo Laboratório de Inovação em Dados Públicos (LIDP), permitiu identificar padrões que passariam despercebidos em análises tradicionais. O código-fonte do algoritmo foi disponibilizado em repositório aberto para replicação acadêmica.
**Fontes**
- Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — Resultados oficiais das eleições de 2026. - Ministério da Economia / Secretaria de Comércio Exterior (Secex) — Dados de exportação municipais (jan-ago 2025 vs. jan-ago 2026). - Departamento de Ciência de Dados da Universidade de Brasília (UnB) — Validação metodológica do cruzamento de dados. - Brazilian Political Science Review — Análise de Helena Tavares (FGV) sobre comportamento eleitoral e comércio exterior.
Por Renan Filho · 2026-10-08